A viúva Digeane da Silva desceu um ponto antes do local onde o marido foi morto
Edmilson dos Reis Alves comemoraria 60 anos nesta terça-feira, mas não chegou a descobrir que a família faria uma festa surpresa para ele no próximo fim de semana. Motorista de ônibus há 21 anos, ele foi espancado até a morte na noite de domingo após ter um mal súbito, perder o controle do coletivo e bater em carros e motos que estavam em frente a um baile funk no Parque Madelena, Zona Leste.
Havia 300 pessoas na festa e pelo menos 20 participaram do linchamento. Nenhum dos agressores foi preso. Era a última viagem da noite e, além de Alves, havia outras três pessoas no ônibus. A cobradora Adglelse Toscano, 24 anos, estava de carona no ônibus e percebeu que o motorista estava passando mal. “Ele ficou paralisado do nada”, conta. Ela puxou o freio de mão, mas o pé de Alves estava no acelerador e o ônibus seguiu descontrolado, colidindo contra três motos, dois carros e uma moto. Uma pessoa foi atropelada, mas passa bem.
“A partir daí, eu vivi cenas de um filme de terror”, diz Adglelse. Ela conta que os participantes do baile invadiram o ônibus e tiraram o motorista pela janela. Alves parecia inconsciente e mesmo assim levou chutes e pontapés na cabeça. Os agressores usaram o extintor para agredi-lo.
O cobrador Rogério Rodrigues dos Santos, 27 anos, fez o trajeto pela primeira vez naquele dia. Ele ouviu do colega experiente que a região era perigosa, especialmente em dias de jogo. Mesmo assim, ele jamais imaginaria que Alves seria assassinado horas depois. “Disseram que ele estava bêbado e iria morrer. Eu falei que ele tinha passado mal, mas não me ouviram”, disse.
A polícia demorou 15 minutos para chegar e não conseguiu encontrar nenhum dos agressores. Alves chegou morto no Hospital Sapopemba, com traumatismo craniano. A Polícia Civil admite que a identificação dos criminosos é difícil. Segundo o delegado Antônio José Pereira, chefe do 69º DP (Teotônio Vilela), as testemunhas dizem ser incapazes de fazer retrato-falado e não há câmeras no local. “A festa foi filmada por celulares e câmeras particulares e nossa esperança é de que alguém forneça as imagens”, afirmou.
Alves fazia o trajeto Parque Madalena-Liberdade há nove anos e era conhecido no bairro como “Paraná”. Ele não bebia, não fumava e nunca teve problemas no serviço. Seu único vício era torcer pelo Palmeiras. A camiseta do time do coração o acompanhou no caixão lacrado durante o velório no Cemitério Vila Alpina. O enterro está marcado para esta segunda-feira.
Opinião
Acácio Miranda, professor do curso de pós-graduação em ciências penais da Rede de Ensino LFG
A face covarde da ‘justiça’
Causa repugnância a notícia de que um motorista de ônibus foi espancado até a morte por pessoas muito mais jovens, revoltadas por um problema de saúde ao qual todos estão sujeitos e causou apenas danos materiais.
O acesso a um julgamento imparcial, no qual estejam presentes o direito ao contraditório e ampla defesa, constitui um dos pilares da sociedade organizada, ao passo que o linchamento nos remonta às sociedades mais primitivas, àquelas onde a justiça era feita com as próprias mãos. E as injustiças também.
Certo é que a figura do linchamento não está prevista no nosso ordenamento jurídico, sendo no dia a dia forense imputada aos praticantes deste crime a prática de homicídio, previsto no artigo 121 do Código Penal Brasileiro, acrescido de uma de suas qualificadoras (agravantes) ou causas de diminuição, quando o caso.
Esperasse que seja aplicada a lei e as penas previstas aos autores deste crime, que podem variar de 12 a até 30 anos de reclusão.
Falta de punição alimenta episódios de violência social
O coronel José Vicente da Silva, especialista em segurança pública, alerta para o risco de episódios como o que envolveu a morte do motorista Edmilson dos Reis Alves. “Trata-se de fenômenos emocionais perigosos, chamados turba porque são movidos por revolta, ódio e, principalmente, certeza de impunidade.”
Segundo o coronel, qualquer grupo tem potencial para cometer atos desse tipo, geralmente praticados por pessoas sem antecedentes criminais porque acreditam na existência de motivo aparentemente justo. “Apenas a sólida formação da polícia é capaz de fazer a sociedade mudar seu padrão cultural”, afirma.
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