12/04/2013 12:28

Belém se fecha contra o crime

Após assassinato de Victor Hugo, intenção dos moradores é chamar atenção para a falta de policiamento


Tércio ergue palheta para indicar aos ladrões que seu carro é da região / Reinaldo Canato / Diário SP


Por: Cristina Christiano
cristinamc@diariosp.com.br

Cristina Christiano
cristinamc@diariosp.com.br

O assassinato do estudante Victor Hugo Deppman, de 19 anos, durante assalto no Belém, Zona Leste, foi o estopim para moradores reagirem contra a violência. “Não podemos mais ignorar a morte dos nossos irmãos sem consequências para o estado. Somos cidadãos, não estatística”, diz o cartaz que convida a população para a passeata da paz, às 10h deste sábado, no Largo São José do Belém.

A intenção é fechar o bairro e chamar a atenção das autoridades para a falta de policiamento, afirma o presidente da Associação por um Belém Melhor, Luiz Carlos Modugno. Os pais de Victor e colegas da faculdade Casper Líbero, onde ele cursava o 3 ano de Rádio e TV, confirmaram participação.

INSEGURANÇA /O advogado Tércio Felippe Bamonte, cuja família vive há cerca de 80 anos no Belém, diz que o bairro cresceu muito e a relação polícia-cidadão é inexistente. “Na época da Febem havia sempre viaturas circulando pela região. Mas hoje o policiamento é ridículo. Pelo que sabemos, são 11 PMs, em três turnos, para quase 50 mil pessoas”, comenta Tércio.

O escritório dele, na Rua Irmã Carolina, já foi invadido duas vezes, a última delas em novembro. “Encostaram um carro na porta e carregaram tudo o que podiam”, lamenta.

Os ladrões não perdoam nem mesmo crianças e adolescentes. Nos últimos meses, segundo moradores, os roubos de tênis, celulares e bonés vêm sendo constantes nas imediações de escolas. Também ninguém brinca mais nas ruas porque eles levam as bicicletas.

Para o advogado, o número de roubos e furtos pode ser bem maior do que apontam as estatísticas da Secretaria da Segurança Pública. “Como a delegacia do bairro, o 81 DP, fecha à noite e nos fins de semana, os moradores precisam ir à Vila Carrão fazer o B.O. e, devido à distância e à demora no atendimento, a maioria desiste”, diz.

A PM diz, em nota, que tem vários programas de policiamento no bairro e eles são dinâmicos e readequados de acordo com as necessidades.

Moradores têm código para ladrões não furtarem carros
Para evitar furtos no interior de veículos estacionados nas ruas do Belém, moradores  colocam em prática um código firmado informalmente entre eles e os ladrões. Para indicar que o carro é de pessoas  que moram ou trabalham na região,  uma das palhetas do para-brisas  fica levantada.

“Não sei se funciona. Mas todas as vezes que deixei o carro na rua  segui a orientação e nunca aconteceu nada. Já meu pai se esqueceu de levantar a palheta em uma ocasião e teve o toca-CDs e o GPS furtados”, conta o advogado Tércio Felippe Bamonte, com escritório no bairro.

Segundo o advogado,  a estratégia surgiu anos atrás no bairro vizinho do Brás. Comerciantes cansados de verem seus carros arrombados ficaram de tocaia para flagrar os ladrões e reclamaram.  “Eles disseram que era covardia o que faziam com vizinhos e surgiu o código para diferenciá-los de visitantes”, comenta.

Alckmin quer mudança no ECA para reincidentes
Governador sugere que infratores envolvidos em casos graves como o que matou Victor não permaneçam na Fundação Casa após completar 18 anos

O governador Geraldo Alckmin anunciou nesta quinta-feira que vai pedir ao seu partido, o PSDB, para apresentar um projeto no Congresso Nacional propondo mudanças no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) em relação a infrações graves cometidas por adolescentes reincidentes.

“Nós defendemos a mudança da legislação federal no sentido de que, para casos mais graves e reincidentes, que o prazo (de internação) seja bem maior. E, também, quem completou 18 anos não deve ficar na Fundação Casa”, disse o governador.

Alckmin cita o exemplo do adolescente que matou Victor Hugo Deppman, no Belém, com tiro na cabeça para roubar um iPhone. O acusado completa nesta sexta 18 anos. “Ele vai ficar apenas três anos na Fundação Casa e vai sair com a ficha limpa, embora seja um caso grave e reincidente”, disse.

PROTESTO /Nesta quinta pela manhã, colegas de Victor na faculdade Cásper Líbero saíram em passeata pela Avenida Paulista, no sentido Consolação, para pedir a redução da maioridade penal e mais segurança. O adolescente que matou o estudante morava na Favela Ulisses Cruz, a quatro quadras da casa da vítima. Ele já esteve três vezes internado na Fundação Casa, por roubo, e foi denunciado pelo irmão, que o reconheceu ao ver a divulgação das imagens do crime.

Roubos cresceram 58% em um ano
Segundo estatísticas da Secretaria da Segurança Pública, nos dois primeiros meses desse ano foram registrados 76 roubos na região, contra 48 no mesmo período de 2012.  Esse é o tipo de crime que mais assusta a população, porque faz crescer a sensação de insegurança.

18
é a idade que o ladrão que matou o estudante completa nesta sexta

Novelista desiste de gravar no local
“Amor à Vida”, próxima novela das nove da TV Globo, teria o seu núcleo pobre ambientado no Belém. Mas, mesmo antes do crime de terça-feira, o novelista Walcyr Carrasco mudou de ideia porque, na trama, casos de violência ocorrerão na região.


Compartilhe: