Seis pessoas foram assassinadas em um período de quatro horas, entre a noite de quarta-feira e madrugada de quinta, na região do Jaçanã, Zona Norte de São Paulo. Os crimes ocorreram em três pontos diferentes. Um deles, onde três homens foram executados e dois feridos, fica a 300 metros de onde o soldado Anderson Andrade de Sales, de 28 anos, foi vítima de uma emboscada na segunda-feira. No local da chacina, foram encontradas munições de uso restrito da polícia.
Moradores da região afirmaram ao DIÁRIO que, um dia após a tentativa de assassinato contra o soldado, policiais militares estiveram no lava-rápido. “A Rota entrou procurando drogas e armas e não achou nada”, disse um vizinho, que preferiu não se identificar.
Nos outros dois casos envolvendo três mortes, duas das vítimas tinham antecedentes criminais por tráfico de entorpecentes. O DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) vai apurar todas as mortes e se elas têm relação entre si. O governador Geraldo Alckmin se adiantou sobre o caso. “Não há essa relação entre os assassinatos.” A hipótese de vingança por grupo de extermínio, pelo atentado contra o soldado, também é apurada pela Polícia Civil.
Em nota, a PM diz que não está apurando o crime. “O DHPP não solicitou que a PM auxiliasse nas investigações pelo fato de, até o presente momento, não haver suspeita de PMs envolvidos com o caso. A ‘chacina’ não tem envolvimento com a ocorrência que vitimou o soldado Anderson”, diz a nota. O PM ainda está internado e seu quadro de saúde é estável.
Às 21h30 de quarta-feira, o microempresário César da Conceição Lopes, de 44 anos, seu funcionário Isaque Pereira Lima, de 20, e o adolescente Leonardo Ferreira de Oliveira, de 17 anos, jogavam carta no lava-rápido de propriedade de César, localizado na esquina das ruas Morro do Livramento com Adutora Cabuçu, no Jaçanã. Dois homens em uma moto, usando capuzes, passaram atirando e mataram os três. J.M.R.B., de 14 anos, e Dercy Guilhermino Marques foram feridos e medicados no Hospital São Luiz Gonzaga.
Daniel da Silva Melo, de 21 anos, que tinha antecedente por tráfico de drogas, foi executado na Rua Águas de Chapecó, no Parque Edu Chaves, à 1h15. Levou seis tiros: quatro na cabeça e dois na barriga.
Igor Goes, de 21 anos, e Lucas de Oliveira Máximo, de 20 anos, foram executados com 20 tiros na Rua das Flores, em Jova Rural, às 2h. O primeiro levou tiro no peito, ombro, dois na cabeça, um nas costas e um no pescoço. Lucas recebeu quatro na cabeça, três nos braços, dois no pescoço, um no ombro e quatro nas costas. Suspeitos estariam ocupando duas motocicletas. Segundo a polícia, as últimas três mortes ocorreram perto de pontos de droga. Havia cápsulas de calibre 45 e 9 mm.
No hospital, os dois sobreviventes disseram que ‘ainda não caiu a ficha’
As duas vítimas que sobreviveram à chacina na Rua Morro do Livramento não estavam jogando baralho com outros homens no lava-rápido. Um deles, Dercy Guilhermino Marques, trabalha e mora no local. Ele vende batatas fritas em um carrinho no local e à noite costuma ficar trabalhando até as 23h. O vendedor contou que mora em um cômodo do imóvel e foi para lá que ele e o outro sobrevivente correram na hora do tiroteio.
Marques levou um tiro de raspão no braço e até a tarde de ontem permanecia em observação no pronto-socorro do Hospital São Luiz Gonzaga, no Jaçanã.
O DIÁRIO teve acesso às duas vítimas na hora da visita, às 15h30. Elas estavam sem escolta policial. O vendedor estava em uma maca no corredor, acompanhado de uma filha. “Graças a Deus, eu estou bem. Não sei o que aconteceu. Foi tudo muito rápido. Não caiu a ficha ainda”, disse.
No mesmo hospital, internado em um quarto, estava o adolescente J. M. R. B., de 14 anos. Ele comprava um pacote de batatinhas de Marques, quando ocorreu a chacina. O garoto levou dois tiros, um na perna e o outro no braço, e não corre risco de morte.
Ainda muito assustado, ele disse que esperava o vendedor lhe entregar a batata para sair e correu para dentro da casa dele quando os disparos começaram.
O menino também usou o termo “ainda não caiu a ficha” para falar da chacina. Ele confirmou que dois homens encapuzados entraram no lava-rápido atirando. O menor contou que presta serviços no local na parte da manhã e está com medo. “Parecia cena de filme de guerra.”
A mãe do garoto e seu irmão, que estavam aproveitando o horário da visita para conversar com o jovem, pediram para não serem identificados.
Procurados, os parentes de duas vítimas fatais da chacina, César Conceição Lopes, dono do lava-rápido, e de Leonardo Ferreira de Oliveira, que tinha 17 anos, preferiram não falar sobre o crime.
INDÍCIOS:
Ataques
02/7/2012
Base da Polícia Militar foi atacada no Jaçanã. Dias antes, dois ônibus foram queimados na região do Tremembé. Segundo policiais civis, a área é reduto da facção criminosa PCC.
Tocaia
23/7/2012
Às 21h de segunda-feira, o soldado da Rota Anderson Andrade de Sales, de 28 anos, foi baleado com tiros de fuzil na Rua Flor de Ouro, a 300 metros do local da chacina.
Blitz
24/7/2012
Vizinhos afirmam que policiais da Rota entraram no lava-rápido, um dia depois do atentado contra o soldado e procuravam armas e entorpecentes.
Munição
25/7/2012
Dois encapuzados atiram contra cinco pessoas no lava-rápido, matando três. A polícia apreendeu cápsulas numeradas, de calibre restrito à polícia.
DIÁRIO opina
Medo toma conta das vítimas
A dor e a revolta das famílias das vítimas das chacinas recentes ocorridas na cidade deram lugar ao medo. Em vez de falarem e contribuírem com a investigação sobre a morte dos entes queridos, os parentes preferem o silêncio. O medo de morrer cala fundo. É como se a lei do mais forte fosse sempre do crime e não da Justiça.
Copyright Rede Bom Dia de Comunicações 2011. Todos os Direitos Reservados
Desenvolvido por Lecom S/A