Tradição cultural brasileira, o Carnaval não é apenas a época do ano em que os problemas são esquecidos e os foliões caem no samba ou no axé. A troça, o protesto bem humorado e a ironia com fatos marcantes do momento também são marcas da festa popular.
Com base nesse espírito, o BOM DIA sugere aos carnavalescos quatro modelos de fantasias que têm relação com alguns dos problemas crônicos de Bauru: os buracos nas ruas, a dengue, o político interesseiro e as dificuldades para estacionar.
Os modelos foram criados pelo jovem estilista João Gabriel Campos, 18 anos, com a ajuda do irmão, João Paulo Campos, 22. João Gabriel é estudante de arquitetura e João Paulo, de publicidade e propaganda, ambos na USC (Universidade do Sagrado Coração).
O Carnaval começou no Brasil em meados do século 17, influenciado por festas europeias, com máscaras e fantasias. No século 20, a festa viveu o auge da popularidade, embalada pelas marchinhas.
Gênero musical predominante entre os anos 1920 e 1960, as marchinhas têm melodias simples e letras que usam o deboche e a ironia para abordar os temas do momento em que são compostas.
A crítica social também faz parte de alguns enredos de escola de samba. Em 1989, por exemplo, o carnavalesco Joãozinho Trinta marcou a história do Carnaval com o enredo “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”, considerado revolucionário no Carnaval carioca.
A Beija-Flor, escola de samba conhecida pelo luxo nos desfiles, levou para o sambódromo alas feitas de lixo e uma réplica do Cristo Redentor miserável. Censurada, a imagem desfilou coberta, com o pedido: “Mesmo proibido, rogai por nós”.
Em Bauru, a escola Império da Vila Nova Esperança ficou conhecida pelos sambas de protesto. Atualmente, as homenagens e os temais festivos são mais comuns do que os protestos. O espírito irreverente, no entanto, continua.
Motorista sem vaga
Quem tem carro em Bauru, sabe como é. Está cada vez mais difícil estacionar. João Gabriel criou uma fantasia que explora o corpo sensual da mulher brasilera: roupa preta que faz referência ao asfalto da rua, listras brancas de paetê na parte interior das pernas, tudo para lembrar a faixa de pedestres, e mangas e decote com listras, que remetem às faixas amarelas. “A cauda dá origem às placas que desfavorecem os motoristas na hora de estacionar. A tiara em cristais pretos é a fumacinha causada pelo estresse, pela raiva”, explica.
4.366
É o número de casos de dengue registrados em Bauru ano passado: 4.360 autóctones e seis importados, com seis mortes. Este ano, até agora, foram três casos.
Mosquito assustador
A silhueta sexy feminina, típica do Carnaval brasileiro, aqui ganha traços do temido mosquito da dengue, o Aedes aegypti, que tanto assusta Bauru nos últimos anos: o macacão é preto, rajado com listras brancas. “Os grandes reservatórios de sangue estão presente nas coxas e no peito”, descreve o jovem desenhista. Asas fluidas, máscara com bico comprido e olhos verdes arrematam a fantasia assinada por João Gabriel Campos. Serve para lembrar: é sempre bom ter cuidado para não deixar o mosquito proliferar.
32
É o número de quadras que receberão obras de infraestrutura e pavimentação em três bairros de Bauru. Licitação teve envelopes abertos em janeiro.
Vilã esburacada
Bauru já ganhou destaque (negativo) nacional por causa dos buracos de suas ruas. Hoje em dia, a equipe de pavimentação da prefeitura é ativa, mesmo assim é comum os motoristas precisarem desviar de verdadeiras crateras que surgem a cada chuva, em todas as regiões da cidade. “O croqui relacionado aos buracos tem como principal inspiração a presença de um espírito mau, uma vilã com roupa furada, estilizada, máscara e capa”, diz João Gabriel. “A ideia principal é ser uma vilã das ruas.”
150
É o número de vagas de estacionamento para motoristas idosos nas ruas da cidade. Os portadores de deficiência têm à disposição 160 vagas em Bauru.
Político folgadão
É verdade, não é prudente generalizar. Mas alguém dúvida que muitos políticos brasileiros estão pouco ligando para as causas sociais e dedicam grande parte do tempo aos seus próprios interesses? A fantasia do político folgadão tem terno, camisa e gravata, com colares havaianos típicos do Carnaval, shorts florido característico do período das férias, chinelos e... muito dinheiro nos bolsos. Além do broche com o tradicional apelo: “Vote em mim”.
41
É o número de segundos usado pelos vereadores para aprovar, na última segunda-feira, reajuste de 6,5% nos próprios salários. A proposta tramitou em uma semana. O desenho não tem rosto. O leitor pode ficar à vontade para imaginar o rosto que achar mais apropriado.
Estudante já deu desenho para Paris Hilton
Desenhar é o que o estudante João Gabriel Campos, 18, mais gosta de fazer. É assim desde criança. Ele tem preferência por desenhos relacionados a moda, como joias, frascos de perfume, vestidos, blusas, chapéus, luvas, bolsas e sapatos.
Aluno do curso de arquitetura e urbanismo da USC, teve a ajuda do irmão para criar a fantasia do político “folgado”.
João Paulo Campos, 22, o irmão, estuda publicidade e propaganda na mesma USC.
Gabriel já criou até um modelo para a celebridade Paris Hilton, que encontrou no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, onde o pai trabalhava.
Ele viu Paris na sala VIP, após participar da São Paulo Fashion Week, se apresentou e criou um vestido, que deu de presente para a socialite famosa. “Desenhar me acalma, me anima, me inspira e me completa”, já declarou, sobre sua arte.
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