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QUARTA-FEIRA
23 MAIO
dia a dia
05/02/2012 06:00

BOM DIA traz exemplos de histórias de superação

Diante de infinitas oportunidades, Dona Josefa Maria que veio de Alagoas mostra como é possível vencer Rodrigo Rainho
rodrigo.rainho@bomdiasorocaba.com.br
Apesar de Sorocaba contar com uma rede de cooperativas que emprega 179 agentes ambientais de reciclagem, que ganham por hora trabalhada ou produtividade, têm carteira assinada, recolhimento de 11% do pagamento ao INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) e renda média de R$ 950, há carrinheiros de rua (a prefeitura desconhece quantos são) que preferem o sacrifício do dia a dia e os perigos da rua.

Josefa Maria da Silva é um desses inúmeros carrinheiros autônomos, que trabalham sob sol e chuva com veículos artesanais de madeira cheios de material reciclável e sucata. Prestes a ser despejada da casa em que mora (ganha R$ 500 e paga R$ 350 mensais de aluguel), essa senhora de 60 anos prefere continuar na mesma vida dos últimos cinco anos, limpando o Ecoponto da Vila Barão, zona oeste, diariamente, das 9h às 18h e coletar lixo reciclável do local - um esforço isolado.
Alagoana de Porto Calvo, Josefa começou a atuar no local quando ainda era ermo, um canteiro construído na margem da avenida General Osório, destinado a recolher entulhos e evitar o despejo desordenado de material da construção civil pela cidade.

Depois que abandonou o emprego de auxiliar de lavanderia em uma colônia de férias de Praia Grande, no litoral Paulista, chegou aqui e encontrou seu lugar ao sol.

Todo dia, varre tudo o que os munícipes jogam no canteiro do Ecoponto durante a madrugada. “Se não fizesse esse trabalho, a pista ficaria imunda”, conta, orgulhosa. “Fico chateada quando alguma pessoa me olha diferente, como eu se fosse uma vadia. Não tenho vergonha de ser catadora”, afirma.

Esse preconceito escancarado, que revela com emoção e lágrimas nos olhos, machuca Josefa. Mas cada vez mais pessoas veem com simpatia a importância desses “carrinheiros”, que transitam pelas vias à procura do que vender e para comer, mas é um “incômodo” para alguns motoristas e moradores - alguns são viciados em álcool e drogas. Mas é difícil negar a importância deles para a coleta seletiva e a limpeza da cidade.

“A atual gestão valoriza não só a preservação do meio ambiente, mas também a inclusão social e a geração de renda ”, defende-se Fernando Oliveira, secretário de parcerias. Ele admite que a situação dos “carrinheiros” é precária. “Fazemos todo o esforço possível para trazê-los para o ambiente industrial da cooperativa, com normas de segurança, uniforme, horário e direitos trabalhistas”, afirma.
A rotatividade no setor é grande. Só em janeiro, saíram 15 agentes ambientais de reciclagem das cooperativas Reviver e Catares, e entraram nove. “Nem todos conseguem cumprir regras, como almoçar e beber fora do expediente, ou recolher os objetos das casas no horário certo.”

Rotina / Josefa poderia se cadastrar e trabalhar na Reviver, Catares ou Coreso, mas escolheu ficar na rua, ali no Ecoponto. Começa às 8h. Almoça contando com as doações dos “clientes”. “Tenho muitos amigos. Mas quem me ajuda mesmo é a minha filha. Ela admira o que eu faço, traz meus netos para me acompanhar”.

A casa de Josefa fica em uma rua de terra a 200 metros do Ecoponto onde trabalha. O percurso é longo para alguém da sua idade, mas não reclama. “Tomo cuidado com os buracos, que são muitos. Todo dia, com calor ou frio, empurro o meu carro até lá”, narra.
Depois de instalada, monta uma cobertura para se proteger. É essa a cena que os motoristas enxergam quando passam por aquele trecho da General Osório.

Formiguinha / Josefa aproveita-se da falta de um centro de recicláveis no Ecoponto, criado em 2007 dentro do programa Super Limpa. Acontece que o local é concebido para destinar restos de entulho e árvores.

Quem não recebe a visita dos caminhões e cooperados da Coreso (Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba) e da Central de Reciclagem (Reviver e Catares) pega seus recicláveis e vai até Josefa.
Por sua vez, a catadora vende o material para o sucateiro. O “lixo” volta à sociedade, e deixa de ser depositado no meio ambiente - vias, espaços públicos, lixões e rios. Esses carrinheiros, junto com os agentes de reciclagem, são as “formiguinhas” da cadeia, que fazem o trabalho de ponta da coleta seletiva.

Destino / Enquanto espera pelo material reciclável, Josefa pensa na infância que teve no nordeste, “época que era feliz e não sabia”. Seu pai, um “maxante” (açougueiro na linguagem popular), ensinou-lhe a comer buchada, sarapatel e galinha caipira, seus pratos prediletos. “Faço essas coisas em casa, para minha família. Minhas outras cinco filhas adoram”, conta. “Ninguém daqui conhece a beijucuruba, rocambole salgado com farinha de mandioca e coco ralado”, desafia.
Josefa Maria da Silva conta que foi cortadora de cana. Aos 13 anos, fugiu de casa com a irmã com medo de um estuprador que cercava o bairro, e veio para São Paulo, onde casou com um maquinista de Santos.

Devota de Nossa Senhora, guarda as imagens da santa que recolhe no Ecoponto. “Fico com remorso de passar para frente”, diz. “Meu sonho é viver numa casa só minha, plantar e colher”, desabafa. “Deus prepara algo bom para mim.”
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