Wanderlei Silva: é ganhar ou ganhar
Não tem jeito, faz parte do jogo. Toda vez em que acontece alguma coisa e alguém não pode enfrentar quem deveria, um sujeito sai prejudicado. E, por mais que seja óbvio afirmar isso, evidentemente, o que não é óbvio, às vezes, é quem se dá mal na história toda.
Tome-se o caso Wanderlei Silva x Vitor Belfort como exemplo.
Belfort quebrou a mão. Se deu mal, evidentemente. Não queria que a mão fosse quebrada, evidentemente. Não poderá mais fazer uma das revanches mais aguardadas dos últimos tempos no UFC, a com Wanderlei, evidentemente.
Pior do que isso, talvez, é a situação do card do UFC em Belo Horizonte. A grande atração era o confronto entre os dois treinadores das equipes que participam do The Ultimate Fighter. Era a cereja do bolo. O fato de o combate estar cancelado frustra o "grand finale" do reality.
Paciência.
Mas eu falava de quem se dá bem, mal, blá-blá-blá. Enfim, não foi Belfort quem saiu mais prejudicado nessa história toda. Pode ser o mais frustrado, o mais preocupado. Mas se machucou, paciência, queria lutar, mas não pode. Vai lidar com isso, dar um pequeno passo para trás, agora, mas não tem muito o que fazer.
Não é Rich Franklin o prejudicado na história. Por mais que se diga que caiu de para-quedas na história toda, que esteja no lucro, que vai lutar sem pressão no Brasil, já que não tinha nada a ver com o pato e, no fim, poderá pagar por ele.
O americano não entra num octógono desde 5 de fevereiro. De 2011! Pelo motivo que for, se ainda almejar alguma coisa na vida, tem de estar com sangue nos olhos, sem trocadilhos, para lutar de novo. E conseguiu uma situação boa, até. Dará uma revanche a Wanderlei, quem venceu por decisão unânime dos juízes em 2009. Se ganhar de novo, ganha aí uns pontos e ponto$ com Dana White e companhia. Normalmente, esses caras que aceitam entrar numa "fogueira" assim são bem-vistos. Uns com merecimento, outros não.
Mas é justamente o Cachorro Louco que se dá mal em tudo isso. Por quê? Ora, sigamos a linha de raciocínio:
1) Porque estava treinando para encarar um cara (Belfort) e vai pegar outro (Franklin). Sim, isso muda completamente qualquer estratégia. Sim, isso é complicadíssimo, no nível em que esses caras se encontram. Sim, é um risco que ele tem de assumir.
2) Porque, agora, tem toda a pressão nas costas dele. Contra Belfort, era 50% para cada lado. Paciência. Agora, Wand tem a obrigação de vencer, ainda mais por estar em casa. Vai fazer o evento principal da noite, todo mundo de olho nele, só esperando em qual momento vai mandar o adversário para o chão. O problema será se não mandar...
3) Porque o americano está mais descansado. Wanderlei vem de uma temporada de treinos intensa, aliada à gravação do programa. Não é pouca coisa, ainda mais tendo de preparar uma equipe e lidar com as responsabilidades que isso trazem. Soa como desculpinha, até, mas lembre-se de que detalhes fazem a diferença, sim, senhor.
4) E, por fim, e talvez principalmente por causa disso, porque não era isso que o cara queria. Quando se acerta uma luta, existe muita coisa envolvida. A principal delas, talvez, é o objetivo que se tem. Wanderlei tem dinheiro, tem fama, já teve cinturões. Agora, estava movido por uma meta pessoal, que era tentar vencer Belfort e apagar um fantasma que o acompanha até hoje, o daquele nocaute arrasador que sofreu quando enfrentou o rival pela primeira vez. É evidente que, profissional que é, tem de estar focado para o que (e quem) vier. Mas será que é a mesma coisa?
Em entrevista ao UOL, Wanderlei disse que vai meter a mão em Franklin. Tem condições para fazer isso, mesmo. Mas, mais do que querer, parece que virou uma obrigação. É cruel dizer isso, é verdade, mas a carreira do sujeito pode depender disso.
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