Semana passada, escrevi aqui sobre o que acontece quando subestimamos os sinais que os problemas nos dão antes de atingirem, com toda a violência, o nosso quintal. Usei, como fio condutor, o livro “A Síndrome de Aquiles”, do jornalista Mario Rosa. Ele mostra que, numa situação crítica, a luta com o inimigo nem sempre pode se basear nos valores que estamos acostumados a cultivar. Hoje, termino esse assunto com a opinião de outros estudiosos: Helio Fred Garcia, professor de Comunicação da Universidade de Nova York, e Daí Williams, do Eos Career Service, além de um texto da University of South Austrália. Procurei usar os textos desses especialistas sob o ponto de vista da crise individual, embora a maior parte se refira a eventos políticos e econômicos. Uma vez que a crise se instala, eis as piores maneiras de reagir:
Ignorar o problema
Maria sabe que João, seu marido, está prestes a ser despedido do trabalho, o que vai colocar em dificuldades a sobrevivência da família. Entretanto, como João não toca no assunto, ela finge que não se dá conta dele.
Negar o problema
João, por seu lado, acha que com os contatos que fez durante a vida conseguirá uma nova oportunidade e, portanto, não vê que está numa situação difícil. Esquece uma das leis mais duras da vida, já enunciada por Jesus: “Aos que pouco têm, o pouco que têm lhes será tirado”. No momento em que perder o emprego, todos estes contatos desaparecerão também, porque João nada mais terá a oferecer em troca.
Recusar-se a pedir ajuda
João e Maria passaram muitos anos juntos e se conhecem muitíssimo bem. João está com a cabeça cheia de problemas, pois a crise absorve todas as energias do ser humano. Maria talvez pudesse auxiliá-lo, mas o orgulho não o deixa compartilhar suas dificuldades. O resultado é que, incapaz de pensar com lucidez, João se afunda cada vez mais no oceano das dificuldades.
Mentir ou dizer meias-verdades
Maria, um dia, toma coragem e, na hora de dormir, pergunta se algo está errado. João responde: “Estou pensando em mudar de emprego”. Claro que, do ponto de vista jurídico, isso pode ser considerado verdade – João, como está prestes a ser despedido, vive realmente pensando em achar um novo emprego. Maria não diz mais nada. A pressão na cabeça de João aumenta, porque ele desconfia de que sua mulher sabe alguma coisa. Mas agora que já mentiu, não tem mais como usar a verdade como instrumento salvador.
Culpar os outros
João sabe que é um homem de bem, sempre foi honesto no trabalho, e procurou dar o melhor de si mesmo. Pensa que seu patrão é injusto, que não merece o que está acontecendo. O fato é que talvez o chefe esteja vivendo o mesmo drama, pois todos são guiados por entidades abstratas chamadas “empresas”. Mesmo assim, diante do que considera um absurdo, ao invés de ficar com a cabeça fria para enfrentar o momento, ele acha que o mundo é feito de gente malvada e cruel.
Superestimar a a capacidade
João começa a dizer como tem talento, como é capaz de fazer isso e aquilo e termina convencendo-se de que não está diante de uma crise e sim de uma oportunidade nova. João tem muito talento mesmo, mas isso não basta, porque não está preparado para o golpe – esse lhe tira totalmente o fôlego e o entusiasmo.
Uma vez que todos os passos errados foram dados, chega o dia e João é mandando embora. A partir daí, a família já está diante do abismo, por causa do precioso tempo perdido negando uma fatalidade.
Então, o que fazer? Bem, eu já estive em muitas crises em minha vida, e penso que já cometi todos os erros acima descritos. Até que, talvez na pior de todas as minhas crises, apareceram amigos. Desde então, a primeira coisa que faço é, simplesmente, pedir ajuda. Claro que a decisão final será de minha total responsabilidade mas, ao invés de sempre ficar procurando bancar o forte, jamais me arrependi de ter me mostrado vulnerável na frente da minha mulher e dos meus amigos. E, quando comecei a agir assim, diminuí bastante minha capacidade de errar, embora ela continue ali, sempre esperando para dar o seu bote.
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