O claudicante momento de Ricardo Teixeira na CBF e a fase irregular da seleção brasileira de Mano Menezes apontam para uma conjunção rara de fatores no futebol brasileiro. Depois de muito tempo à sombra das federações e da confederação, controlados por meio de empréstimos e politicagem, os clubes de futebol do país, principalmente os grandes, têm a oportunidade de revolucionar a modalidade.
Nem será preciso uma grande mobilização, estratégias mirabolantes e reuniões secretas nos bastidores. Basta os clubes que reúnem o grosso dos torcedores, ficam com a maior fatia das receitas publicitárias e da exposição na mídia perceberem que podem ser eles próprios os gestores de seu negócio, sem precisar de intermediários.
Não proponho com isso o fim das federações e da confederação. Apenas uma adequação ao seu papel. Que, a meu ver, é o de regulamentar competições, cuidar de arbitragem, fiscalizar estádios e zelar pela sobrevivência das equipes pequenas e médias. Assim como a CBF deve exercer a mesma função em termos nacionais, acrescentando a isso a administração das seleções.
Os campeonatos devem ser geridos pelos clubes, pensando no melhor para eles e seus jogadores. Pode parecer banal quando um treinador reclama de que tem de ceder seu jogador para a seleção na rodada de um clássico importante. Acontece toda hora. Porque há conflito de interesses. A seleção quer os melhores jogadores, ainda que para amistosos pouco produtivos. O clube precisa dos melhores jogadores que tem, mesmo que para jogos sem grande importância, de início de temporada.
O crescimento do negócio futebol no Brasil pavimentou o caminho para o grito de liberdade dos clubes. Hoje eles faturam muito mais do que há dez anos. Com TV, marketing, patrocínios e fidelização de torcedores. Se fossem mais bem administrados, não precisariam recorrer a adiantamentos e empréstimos de federações.
No caso das federações, por que elas precisam ficar com o grosso da grana da TV e repartir entre os clubes a seu critério? Se não devessem dinheiro para essas entidades, os clubes poderiam reagir a isso. Afinal de contas, sem eles, não há campeonato.
Como o modelo atual de administração da CBF parece prestes a ruir e a força dos clubes só cresce, seria preciso um tipo de pacto entre as instituições para que todas possam saborear esse novo momento. O Corinthians tentou isso e conseguiu recentemente, numa ação isolada que contou com algumas adesões. Mas o pensamento era apenas nele, Corinthians. Quem quisesse vir junto, que viesse.
Talvez não haja melhor momento do que esse para que os clubes, enfim, possam exercer o poder que lhes foi conferido pela paixão do torcedor e revolucionem, de fato, o futebol no Brasil. Antes que tudo se acabe na quarta-feira.
Conselho aperta
Não foi fácil a situação de Adalberto Baptista, diretor de futebol do São Paulo, na última reunião do Conselho Deliberativo do clube. Embora educadamente, ele foi pressionado por conselheiros de oposição sobre o desempenho do time, principalmente na derrota para o Corinthians. Perdeu um pouco de crédito por isso.
Área limpa
Amigos e conhecidos do novo presidente corintiano Mário Gobbi (foto) têm aconselhado seguidamente o mandatário a limpar a área na diretoria. Consideram que ele não deve repetir o erro de Andrés Sanchez, que tinha nomes com passado e presente suspeitos entre os colaboradores próximos, o que prejudicou sua imagem.
Inflacionou
A novela envolvendo Palmeiras e Wesley se alongou por causa do preço. Quando tudo parecia acertado, intermediários cobraram comissões, uma delas de R$ 300 mil. O jogador resolveu pedir mais e os alemães do Werder Bremen, também. A conta subiu 2 milhões de euros (R$ 4,5 milhões) em algumas horas.
Nó tático
Admito que não sou o mais politicamente correto dos seres. Tento, ainda assim, respeitar tudo e todos, mas sem deixar de me manifestar quando algo me irrita. No futebol atual, há alguns padrões de comportamento entre os jogadores que acho difíceis de suportar.
O primeiro deles é até meio óbvio. Jogador que beija o distintivo do clube quando é apresentado. É de uma promiscuidade revoltante. O cara beija um monte de distintivos ao longo da carreira, sempre com juras de amor eterno. São fazedores de média canastrões.
Mas há três tipos em ação nos gramados brasileiros que provocam minha revolta: goleiro que comemora defesa, zagueiro que festeja desarme e jogador puxa-saco de torcida em rede social.
Quando o goleiro faz uma defesa que nem é das mais difíceis, mas se levanta num pulo, volta-se para a arquibancada, abre os braços, faz cara de bravo e sai gritando, batendo no antebraço, pode esperar: em pouco tempo vem um frango ou um erro grosseiro. Confesso que sou meio antiquado. Goleiro bom é aquele que faz a grande defesa e sai orientando os beques sobre o posicionamento do escanteio, sem se alterar. Comemorar uma defesa de pênalti, vá lá. Mas, sinceramente, você se lembra do Leão, do Taffarel, do Marcos e do Ceni comemorando defesa?
E o zagueirão que dá um bico para fora do estádio e sai como se fosse o Homem -Aranha pra galera? Cronometre que, em pouco tempo, ou ele tomará um cartão amarelo bobo ou fará uma falta desnecessária. Essa necessidade de reforçar que tem garra e está se dedicando soa falsa. Gamarra comemorando desarme? Luís Pereira? Caso alguém se lembre, escreva para a coluna.
Para fechar, dá até ânsia de vômito ler nas redes sociais aquele recadinho básico: “Bom dia, nação x, obrigado pela força e pelo apoio. Estou com vocês, sempre”. Tem uma turma aí que nega autógrafo, finge estar ouvindo música ou falando ao telefone, mas posa de soldado da pátria em twitters e afins.
Saudade do tempo em que goleiro só defendia, zagueiro só marcava e comemoração era quando alguém fazia gol.
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