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Diário de São Paulo

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SEGUNDA-FEIRA
21 MAIO
02/10/2011 00:03

Em busca do mestre

– Certos discípulos vivem me perguntando onde está a “verdade, disse Maal-El. Então, certo dia, resolvi apontar para uma direção qualquer, tentando mostrar que o importante é percorrer um caminho, não ficar pensando sobre ele.  Ao invés de olhar para a direção que eu apontava, o homem  que me fez a pergunta começou a examinar meu dedo, tentando descobrir onde a verdade estava escondida.

Quando as  pessoas procuram um mestre, deviam estar em busca de experiências que possam ajudá-las a evitar certos obstáculos. Mas, infelizmente, a realidade é outra: estão usando a lei do menor esforço,  tentando encontrar  respostas para tudo. Quem deseja beneficiar-se do esforço do mestre para poupar suas forças nunca chegará a lugar nenhum e acabará por decepcionar-se.

Quem estudar um pouco a história de Buda notará que, após ter atingido a iluminação, dedicou-se a fazer com que seus discípulos desenvolvessem as qualidades necessárias para alcançar a tão esperada paz do espírito. Quem ler os evangelhos irá reparar que quase a totalidade dos ensinamentos de Jesus, acontece em duas circunstâncias: enquanto ele viajava ou em torno de uma mesa.

Nada de templos. Nada de lugares escolhidos. Nada de práticas sofisticadas e difíceis; os apóstolos prestavam atenção ao que ele dizia enquanto andava, comia – algo que fazemos todos os dias de nossas vidas e, por isso mesmo, não damos nenhum valor aos muitos ensinamentos que estão escondidos nas tarefas diárias.

Pensamos que as coisas sagradas são acessíveis apenas para os gigantes da fé e da vontade,e achamos que aquilo que a gente faz é pobre demais para ser aceito com alegria por Deus.

Em busca de nossos sonhos e ideais, muitas vezes colocamos nos lugares inacessíveis tudo o que está ao alcance das mãos. Quando descobrimos o erro, ao invés de ficarmos alegres com a compreensão de nossas falhas, nos deixamos levar pela culpa de ter dado passos errados, investido nossa energia em procura inútil, ter causado desgosto a quem desejava nossa felicidade. E então, perigosamente, nos aproximamos dos “mestres” ou “gurus” que irão recuperar o nosso tempo perdido.

Não é bem assim: embora o tesouro esteja enterrado na sua casa, você só irá descobri-lo quando se afastar. Se Pedro não tivesse experimentado a dor da negação, não teria sido escolhido como chefe da Igreja. Se o filho pródigo não tivesse abandonado tudo, jamais seria recebido com festa por seu pai. Se Buda não procurasse viver uma vida de sacrifício por muitos anos, jamais entenderia o prazer da alegria.

Existem certas coisas em nossas vidas que têm um selo dizendo: “Você só irá entender meu valor quando me perder – e me recuperar”. Não adianta querer encurtar este caminho.

Diz um velho ditado mágico: quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.

Pensando nisto, muitas pessoas passam a vida inteira se preparando para tal encontro. Quando cruzam com o mestre, entregam-se completamente – por dias, meses ou anos. Mas terminam descobrindo que o mestre não é o ser perfeito que imaginaram, e sim uma pessoa igual a todas as outras, cuja única função é dividir aquilo que aprendeu.

Ao ver-se diante de uma pessoa normal, o discípulo sente-se lesado.   Vem o desespero e o desejo de abandonar a busca - quando, na verdade, é assim que a coisa funciona, é isto que nos deixa livres para criarmos nosso próprio caminho.

Edenilton Lampião deu uma versão muito melhor para o tal ditado mágico: quando o discípulo está pronto, o mestre desaparece.

Paulo Coelho é escritor. Site: www.paulocoelho.com.br

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