Uma coisa deve estar bem clara para todos nós: não podemos confundir humildade com falsa modéstia ou com servilismo. Como diz Carlos Castañeda, um guerreiro não abaixa a cabeça para ninguém, mas tampouco deixa que alguém se humilhe diante dele. A seguir, duas histórias sobre o lado positivo da humildade:
A pedra que falta
Um dos grandes monumentos da cidade de Kyoto é um jardim zen, uma superfície de areia com quinze rochas.
O jardim original tinha 16 rochas. Conta a lenda que, assim que o jardineiro terminou sua obra, chamou o imperador para contemplá-la.
– Magnífico – disse o imperador.– É o mais lindo do Japão. E esta é a mais bela rocha do jardim.
Imediatamente, o jardineiro tirou do jardim a pedra que o imperador tanto apreciara e jogou-a fora.
– Agora o jardim está perfeito – disse para o imperador. – Não existe nada que se sobressaia e ele pode ser visto em toda a sua harmonia.
Um jardim, como a vida, precisa ser visto na sua totalidade. Se nos detivermos na beleza de um detalhe, todo o resto parecerá feio.
O céu e o inferno
Um samurai violento, com fama de provocar briga sem motivo, chegou em mosteiro zen e pediu para falar com o mestre.
Sem titubear, Ryokan foi ao seu encontro do samurai.
– Dizem que a inteligência é mais poderosa que a força – comentou o samurai. – Será que o senhor consegue me explicar o que é céu e inferno?
Riokan ficou calado.
– Viu? – bradou o samurai. – Eu conseguiria explicar isso com muita facilidade: para mostrar o que é inferno, basta dar uma surra em alguém. Para mostrar o que é céu, basta deixar uma pessoa fugir, depois de ameaçá-la muito.
– Não discuto com gente estúpida como você – comentou o mestre zen.
O sangue do samurai subiu a cabeça. Sua mente ficou turva de ódio.
– Isto é inferno – disse Ryokan, sorrindo. – Deixar-se provocar por bobagens.
O guerreiro ficou desconcertado com a coragem do monge e relaxou.
– Isso é o céu – terminou Ryokan, convidando-o para entrar. – Não aceitar provocações bobas.