17/02/2017 01:17

Chuva, suor e cerveja

Por: Alessandro Araujo
alessandroaraujo_@hotmail.com

O velho transformou o grito perto das casas tristes. As janelas fechadas, ao tempo de vento raso e quente, as portas presas em batentes de madeira podre. O mito do bairro quieto, ruas pequenas enfeitadas com espelhos coloridos. Disse o velho:

– Espelhos refletem as nuvens, espelhos coloridos nos muros!

Ele estava só. Arrastando os chinelos de marca conhecida no asfalto, nenhuma porta abriu. Bateu forte em três delas. O nada. O sol quente e o silêncio inquietante eram mais parecidos com um grito.

Eu estava lá. Eu o vi passar de um lado para o outro. Os olhos apontados para o alto, não quis abrir a porta. As batidas fortes na madeira, socos desesperados como uma insaciável sede. Da minha casa, só restaram as cadeiras. Com o tempo, algumas pernas se foram em dias de chuva, ficaram apenas os assentos, espalhados pelo piso frio. As águas barrentas lavaram a rua inteira, pararam depois de três dias e mostraram o céu diferente. Eu sei, parece livrar-se de um pesadelo repetido, de noites virando o corpo para tentar achar o completo. Os sonhos sem sentido e abertos em estrelas de matemática incerta. Tentei, para dormir. Eu sei como é.

– Os espelhos estão brilhando! Vejam, abram os olhos!

Fiquei com o rosto colado na fresta da janela do andar de cima. Os meus braços abertos. Queria um abraçaço dos esquecidos, aquele bairro distante e sem nome. Sim, nem eu lembrava mais qual era o certo. Nome de Santo, como muitos outros, ou até mesmo com início de jardim. Não importava.

O velho berrou ainda mais, a angústia ficou festiva. Os girassóis viraram para aquele lado. O mesmo que o mesmo velho correu, com a pressa de fome. A música alta, prestei atenção, era mais gente do estrelas na noite do céu. 

Não esqueci quando o bloco entrou na rua. A felicidade do velho feito criança com presente. Pode ser isso. Não sei, ando não querendo entender mais nada. As cores mais fortes do que os espelhos do velho, que colocava todos os dias nos muros do bairro. Pintava as molduras, muito meses de calor forte e silêncio, até a música do bloco chegar e eu me lembrar de tudo. De mim, perdido nessa casa com portas trancadas e cheiro de ambiente fechado, até eles chegarem no horário de ponteiros insignificantes. Sou mais parecido com eles, com chuva, suor e espelhos coloridos. 


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SOBRE Alessandro Araujo

Escritor, paulistano e não sabe escrever sobre ele. Lançou seu primeiro livro em 2012, publicou contos nas revistas CULT e Caros Amigos e no Jornal Rascunho. Mais que uma história, o universo a que se refere exige articulações ficcionais diferentes.