03/01/2017 13:14

What's up ou os dias?

Por: Alessandro Araujo

As interrupções são mútuas. A cidade acesa nos holofotes brilhantes de programas televisivos. Algo quebrado nas interações das redes sociais. Tudo que é: o emaranhado de comentários sem sentido. O bom senso muda conforme as transições de abas nos navegadores da internet. E ele está lá, sentado no sofá de marca apresentada em promoções de links patrocinados. A abordagem de cliques e teorias. O copo de chá gelado sem açúcar. A intuição afinada e os dedos rápidos no smartphone. Pausa para o gole.

 

Existe o momento de impulso, raiva e ódio. Todos experimentaram isto pelo menos uma vez. A sensação muda e esconde atrás de telas brilhantes. O tédio das reclamações clicheriosas e com erro de vocativo nas timelines. Não é mesmo? A raiva move. Sim, já sabemos. Estamos cientes dos memorandos dos jornais, ainda embrulhados com peixe em feira livre. Este movimento de ódio momentâneo é repulsivo. Refinado e com pontuação correta é ainda pior, como Donald Trump, uma espécie de legitimador da ofensa. O gelo derrete ligeiro em copos descartáveis e o chá está na temperatura ambiente. Perde-se o frescor. 

 

Havia uma certeza antes do gole no chá morno. O futuro, promessas. As mesmas. Agora, ontem e amanhã. No tempo gravado nas passagens da troca de cores nos semáforos. A avenida Paulista. De uma ponta a outra. Exclamações de certezas preguiçosas. Acabou o exercício da dúvida. Alegorias de Glauber Rocha.

 

Estações do metrô que anunciam o fim do funcionamento. O grito sem rumo dos ambulantes. Cores da camisa de um músico perto de lá. Sozinho. A fala que não acontece no momento certo. As curvas em direção da rua de mão única. Slogans nas sacolas plásticas sem uso. A incoerência do absurdo. Bicicletas vermelhas proibidas de circular por ali em certos domingos. A pena: truculência. Perdemos todos, não há vencedores, risos ou aplausos no fechar das cortinas. O vento corre solto e aberto. A banheira empoeirada de um prédio velho. Sem uso. 

 

Momento estranho entre nós. Eles, os políticos, estão com os holofotes e berram com os dedos para o alto. Falam de suas esposas e esportes favoritos. Pratos preferidos e o riso de canto. Um popstar de péssimo gosto. Seguido pelo resto, perdidos em raciocínios atrasados e retrógrados. Alimentados pelas luzes sem iluminismo de nossa tecnologia. What's up?


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SOBRE Alessandro Araujo

Escritor, paulistano e não sabe escrever sobre ele. Lançou seu primeiro livro em 2012, publicou contos nas revistas CULT e Caros Amigos e no Jornal Rascunho. Mais que uma história, o universo a que se refere exige articulações ficcionais diferentes.