16/12/2016 14:13

Baladas com cerveja quente

O copo quente.  Falou muito e rápido. Tudo de uma vez. Sentado na cadeira da calçada larga e a tarde de calor. Ficou lá, parado e sozinho. Depois dela aparecer para dizer tudo. Não por maldade. Imaginou outros nomes saindo dos lábios de Lúcia. Seria logo. Daquele jeito simples dela. Dizia uma coisa e insinuava outra. Chegou assim e pronto. Ia morar fora, cidade de nome estranho no litoral do Peru. Ainda era tempo de um breve café. Ele continuou lá. A viu caminhar devagar, arrumando os cabelos para o lado. O andar único de Lúcia.

Trocou o café pela cerveja. No mesmo lugar e mesa. A música preferida deles era um clichê de balada na Augusta. Ficou só, pensou muito e inventou desculpas: não era tudo aquilo, detesto gente blasé. Sentiu intranquilidade ao virar a garrafa, encher o copo e estar sozinho. As outras mesas tinham ainda mais gente. Na noite, os semáforos davam voltas em suas cores simples sem incômodos. Sentiu a cerveja quente bater na garganta. Uns caras tomaram o espaço direito da calçada. Tocaram duas seguidas dos Smiths. O vocalista usava um topete Elvis enquanto muita gente parava para jogar moedas na caixa aberta. Lúcia curtiria eles, certeza.

2+2=5. A música do Radiohead serviria como trilha sonora das horas. Fez sentido para ele. Lúcia passaria seis meses lá. Não é tanto tempo assim, ele pensou e completou: é até rápido, eu trabalho e ela também, nos vemos em algumas noites de sexta e domingo. Sábado, não muito. Deve ser isso, é o dia dela sair com as amigas. Enfim, não vou ficar pensando só nela em seis meses. Vou sair por aí. Teremos muito tempo quando ela voltar, daí alugamos um apartamento e moraremos juntos. Ela quer muito um gato.

Mais gelo, por favor. A dor ficou maior. Não porque já senti algo. Nós sempre fomos abertos um com o outro. Ela até já pegou algumas mulheres por aí. Talvez mais do que caras. Não fazia sentido ficarmos juntos para sempre. O amor prende, não é? Tenho certeza que é mais normal. Acho que essa coisa de ficar com uma pessoa só é egoísmo. Até machismo da sociedade, entende? Prefiro assim, compromisso é algo chato. Ela pode ficar longe um tempo. Normal (todas as frases e palavras dele para uma menina no balcão de uma balada no centro, seis meses depois).

 


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SOBRE Alessandro Araujo

Escritor, paulistano e não sabe escrever sobre ele. Lançou seu primeiro livro em 2012, publicou contos nas revistas CULT e Caros Amigos e no Jornal Rascunho. Mais que uma história, o universo a que se refere exige articulações ficcionais diferentes.