25/09/2016 22:02

Minha prece para as eleições

 

Ó, Deus, amolece o solo deste meu coração empedernido! Quero me encantar com a visão dessa garotinha correndo na grama, e que a água do chafariz que ela lança com a mãozinha para o alto, em câmera lenta, me enterneça a alma dura e descrente. A minha cidade é assim, menina e próspera, uma metrópole embalada pela canção que toca a esperança que a gente perdeu à toa, porque está tudo certo e bom!

 

O porvir se faz com sangue nas veias e força para trabalhar, quem garante isso é o homem de camisa branca que surge agora na tela da TV, arregaçando as mangas, de cara sincera; está sem gravata porque ele é povo, ele trabalha desde menino, não duvide você disso, o sorriso alvo é de laser mas também de boas intenções, o coração que bate forte no peito dele é preocupado com a gente, pode crer. Veja só com que gosto ele abraça o pobre suado, beija a criança remelenta, sobe no ônibus e come o croquete, e até ri de boca cheia! Ele é simples, gosta de samba e tudo! É entre o povo que gosta de estar, como duvidar? Ele é trabalhador, garante o jingle! É disso que precisamos, basta acreditar!

 

Então some o homem e entra uma mulher, essa é da gente, luta pela gente, olha tudo o que fez! O sorriso de um velho vem atestar, e não é só um, porque a câmera abre e são muitos, felizes, bem aposentados e com saúde, e a cena está na voz doce de um narrador contando prosperidades, e eles jogam dominó na praça enquanto a moda de viola regionaliza e emociona, que lindo isso! E as cenas sucedem agora num sobrevoo rasante e emocionante sobre a cidade! Ui, que arrepio! E a sanfona tocando, e é caminhoneiro, peão de capacete, empregada doméstica, porteiro de prédio, eletricista no poste, servente de pedreiro, capataz de estação, gari, professora, policial, frentista, cozinheira, manicure, mecânico e marceneiro, vê o sorriso deles? Todos cheios de dentes, acenando para uma cidade que é minha, é sua, é nossa!

 

E não duvide! Sossega aí que já vem esse outro, esse defende o povo não é de hoje, e vai explicando suas virtudes e valores, e nova música e nova emoção! Ah, ele vai nos fartar de pão, de saúde, de segurança, de trabalho, de educação, de oportunidades, de condução, de dignidade e de justiça! É o ônibus barato, a avenida sem multa, o pão na mesa do trabalhador, o dinheiro no bolso, a família, a mangueira no quintal, o prato de feijão, o abraço amigo, o café quentinho, o chute na bola, o chão da estrada... Que maravilha! É trabalho, emprego e renda, meu irmão! Tudo será melhor, vença quem vencer!

 

Ó, Senhor, faz de mim a menina do poema Tabacaria, porque quero é comer chocolates com aquela verdade, e poder me alegrar, mesmo que num sorriso sem dentes, da beleza que é essa minha cidade!

 

 


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