24/08/2016 18:09

Cuidado Degrau

Por: Alessandro Araujo

 

Os avisos de uma cidade são praticamente exercícios contínuos de concentração. O ônibus tem muito disso, como formas aleatórias de parecer tudo simples. Ao girar a catraca e o habitual nada a dizer ao som alto de fones de ouvidos conectados em smartphones. Prefiro aquele grande vidro das janelas das portas. Os olhos querendo ultrapassar algo que ainda não sei. O luminoso forte, branco e com letras vermelhas: cuidado degrau.

 

Pensei em colocar uma vírgula. O  vocativo soaria melhor em dias de vento frio e gotas finas que despencam do céu cinza, quase branco. Mais cinza do que branco. Escuro é melhor. O degrau, pseudônimo de quedas ligeiras para desatentos. Pode começar com letra maiúscula: Degrau, um substantivo próprio ou pessoa que aumenta o número de música na playlist em serviço de streaming. “Probido o uso de aparelhos sonoros”.

 

As instruções de uso e os pontos cheios. Gosto de ônibus e do movimento das pessoas no mesmo metro quadrado. Os bancos lotados e o choro desconhecido de alguma notícia ruim recebida. A comemoração solitária de outros. As histórias que se encontram em esbarrões e desculpas automáticas. Mais rápidas do que as luzes dos carros na pista contrária. Quantas vezes o botão de próxima parada é acionado por dia? Perguntas bestas e óbvias. Achei motivo desinteressante para a placa acesa.

 

– À direita, depois do amarelo piscante.


Hora de descer.


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SOBRE Alessandro Araujo

Escritor, paulistano e não sabe escrever sobre ele. Lançou seu primeiro livro em 2012, publicou contos nas revistas CULT e Caros Amigos e no Jornal Rascunho. Mais que uma história, o universo a que se refere exige articulações ficcionais diferentes.