25/07/2016 22:59

O sol do inverno

 

 

Como é gostoso o sol do inverno! Tão diferente do sol do verão, que nem parece o mesmo.

 

No verão ele vem agressivo, inclemente, causticante. Para nós, que circulamos por uma metrópole de cimento como São Paulo, em nossos trajes de trabalho, o sol é um inimigo covarde, que castiga constantemente, obrigando a gente a se esconder sob marquises, toldos, árvores; a aproveitar sombra de postes, resguardar o braço esquerdo na proteção da porta do carro para não acabar com um tostado e o outro cru.

 

Mesmo quando estamos a salvo dos raios diretos desse sol perverso, ele nos incomoda e flagela, elevando a temperatura a limites insuportáveis, fazendo tremelicar a paisagem, derreter o asfalto, esturricar os crânios, superaquecer o volante do ônibus, o painel do carro... 

 

Nas tardes de verão, aqui em São Paulo, o suor abundante que escorre por dentro das roupas produz aquelas rodelas escuras nas costas e embaixo dos braços, que vergonha. Viramos verdadeiros bacons humanos, de tanto suar e secar acabamos o dia defumados e grudentos.

 

Ah, no inverno o Sol é tão diferente! O inimigo severo vira amigo afetuoso, e assim o buscamos a todo o instante. Esse novo sol, aliado, parceiro, nos ajuda a espantar o frio e compensar o vento gelado e cortante que nos surpreende pelas ruas. Que delícia aqueles raios que entram pela janela e aquecem o escritório frio, que iluminam suavemente um quarto, que matam os ácaros da noite úmida, que criam locais especiais para os animais domésticos, friorentos, se aconchegarem.

 

Saí de um cliente. Era uma dessas tardes frias. O Sol se insinuava no horizonte projetando incríveis lâminas alaranjadas pela cidade. O relógio do totem, fincado na ilha no centro da avenida, marcava 17h40. Dirigindo em busca da via principal que me tiraria do centro do bairro pouco conhecido, avistei, numa simpática rua de casas antigas, um charmoso e convidativo café. Parei. Não resisto a uma bela casa de cafés. 

 

Pedi um capuccino e fui me sentar numa das mesinhas de madeira cobertas por toalhinhas, junto à calçada. O vento, apesar de suave, já incomodava um pouco na sombra e avisava que a noite seria para edredons robustos. Minha jaqueta já não estava servindo para cortar o frio, mas eu tinha sem querer escolhido a mesa certa, banhada pelo sol. Por um instante até fechei os olhos, estiquei as pernas e quase cochilei, acariciado pelo calorzinho reconfortante.

 

Quando me dei conta, a xícara de capuccino já fumegava na minha frente, trazida pela atendente. Um cão de rua, desses sofridos, se ajeitou perto da mesa, compartilhando comigo democraticamente a mesma fatia de sol. Olhamo-nos. "Aceita um capuccino?" – perguntei – "Eu pago!"

 

A atendente, que agora passava um paninho na mesa ao lado, me olhou e voltou ao seu paninho. “Mais uma que não entende o prazer do sol do inverno” – falei pro meu novo amigo, que encaixou o queixo no meio das patas e pareceu me sorrir com os olhos. 

 

***** 

 

Crônica publicada no livro A Idade do Vexame & outras histórias - Pontes/ 2011

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