19/06/2016 14:08

Ditinho Joana

Em minhas andanças e paranças, nesses já quase quarenta e três setembros que somo, poucas vezes estive em uma localidade tão simpática quanto São Bento do Sapucaí, na região da Serra da Mantiqueira, Estado de São Paulo, logo ali, relando o sul de Minas. Lugar frio, montanhoso, calmo e hospitaleiro.

 

O amigo Vagner, que me emprestou seu sítio por aqueles dias, foi firme: Não deixe de visitar o ateliê do Ditinho Joana!

 

O Ditinho Joana eu já conhecia, de nome e fama. Faltava mesmo era conhecê-lo pessoalmente, e a sua obra. E foi com grande surpresa que me vi dentro do seu singelo ateliê, magnetizado diante da simplicidade imponente da escultura do sapateiro, a primeira com que me deparei logo à entrada.

 

Eis que surgiu seu Ditinho, homem pequeno da tez caramelo, parecendo ele próprio esculpido em madeira de lei, um sorriso doce e discreto talhado no rosto, que nos cumprimentou com afetuosidade e já foi nos contando as histórias das obras (sim, cada obra tem uma história, os personagens fazem coisas, têm intenções, pensamentos…) em voz serena, uníssono delicioso e calmante, enquanto nos levava pelas salinhas do ateliê, com paciência e amor.

 

Para esculpir, seu Ditinho usa formão e martelo, e nada mais. Faz assim há 35 anos, e é só com isso que trabalha. O resto é talento. Um talento que chega a ofender as misérias da gente. Diante de suas esculturas tenho que confessar que me senti um bicho miúdo, um rude, bruto e primitivo, um filho desgraçado da pequenez humana.

 

Do Jacarandá, do Cedro e de outras madeiras nobres (sempre árvores já mortas e tombadas, que ele compra dos donos dos sítios e chácaras nas imediações), seu Ditinho extrai figuras humanas esplêndidas, homens do campo, trabalhadores rurais, caipiras montando cavalos, homens em boleias de caminhão, carpindo roça, arando a terra, girando moinho, serrando toras, colhendo uvas, empunhando enxada…

 

São imagens tocantes e ternas, como a mulher embuchada, com o olhar resignado, a lata d’água na cabeça e a criança no colo; ou o velho sentado no degrau da porta, fumando cigarro de palha, aos seus pés um menino jogando bolinhas de gude no chão de terra batida.

 

A mesma filosofia que inspira seu Ditinho a não derrubar árvores, se reflete na sensibilidade humana que ele transpira, e que parece dar verdadeiro espírito às suas esculturas. E foi com essa filosofia que seu Ditinho se dedicou, meses a fio, a esculpir uma cadeira de rodas em tamanho real, com um menino deficiente sobre ela; uma cadeira movida por muitas, inúmeras mãos, representação de cada uma das generosas mãos que anonimamente se estendem na direção do necessitado.

 

Essa espetacular obra ele ofereceu à AACD, que chegou a recusar o presente, a princípio, por não ter visto do que se tratava.

 

Fiquei com a cara metida nas peças, espiando sob o carro de boi, por entre as pernas dos lavradores, dentro da prateleira do sapateiro e nas reentrâncias do caminhãozinho rural do capataz, e me perguntando: Como é possível que um homem consiga esculpi-las, em monoblocos sólidos de madeira dura, sem emendas, e com tão esmerados e mínimos detalhes, rebaixos e profundidades?

 

Em seu eterno silêncio, as obras nada me explicaram.

 

Então me ocorreu que, na verdade, aquelas esculturas já existiam dentro dos troncos das árvores, e o artesão, sabendo que elas estavam lá, aprisionadas, só fez limpar os excessos trazendo-as à luz. Contei essa minha impressão ao seu Ditinho que riu; “é isso mesmo!”, disse ele, aparentemente gostando da imagem.

 

Partimos levando um exemplar da famosa botinha, que agora repousa sobre nosso criado-mudo no quarto de casa. A botinha é a obra símbolo do trabalho do seu Ditinho, sua marca registrada.

 

Trouxemos para São Paulo as palavras finais daquele nosso novo amigo “Quando passarem pela cidade venham aqui, que é pra gente conversar mais!”.

 

A Botinha

 

É nossa caminhada na vida

Subi e desci

Andei depressa e devagar

Cansei e descansei

Entristeci e me alegrei

E assim, sempre caminhei

Hoje estou gasta

E cheia de marcas

Mas com certeza, valeu a pena.

 

Ditinho Joana

 

 (Para ver as obras, acesse: www.atelieditinhojoana.com.br)

 

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Crônica publicada no livro "A Invasão dos Horácios" - Pontes/ 2013

Ilustração: Tales Alexandro

Fale com o Cruz: cancruz@terra.com.br 

 


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