04/06/2016 22:56

O Último Sushi

 

Eu e a Vanessa adoramos comida japonesa. Recentemente abriram perto de casa um restaurante japonês. Tão perto que dá pra ir a pé. Viramos fregueses.

 

Dia desses, o gerente, que já virou nosso amigo, nos presenteou com um convite boca-livre para o jantar de inauguração de uma nova filial da casa, num outro bairro. Lá fomos nós.

 

A rua do restaurante estava atulhada de carros. Imediações de estádio em dia de clássico. O estacionamento? Entupido até a rampa. Paramos numa rua escura, dois quarteirões ladeira abaixo. Já na entrada, apresentamos o nosso convite aos jagunços e entramos.

 

Assim que a porta se abriu, um susto: uma massa caótica de gente apinhada, aglomerada sobre mesas e cadeiras, espalhados pelos corredores, nos acessos aos banheiros, fumando (fumando!) e comendo o que pintava, do jeito que dava. Mesmo assim, todos sorriam, e eu sinceramente não conseguia entender qual o motivo da tal felicidade.

 

Então ficamos ali, olhando aquele fuzuê e tentando entender a lógica da coisa. E não havia lógica. Assim como não havia espaço. Nem ar. E não havia lei também, a não ser a lei do cão. As mocinhas, fantasiadas de gueixas, passavam se espremendo por entre a turba faminta, carregando pratinhos e cumbucas que logo desapareciam.

 

Para comer algo tinha que se disputar espaço na ponta do cotovelo junto ao balcão, oculto por detrás da densa massa de seres humanos que se avolumavam ali, empoleirados. Não sei se foi ilusão produzida pelo calor, mas em certo momento jurei ter visto gente na horizontal, ocupando os espaços vazios acima das cabeças.

 

Enquanto isso, os mirrados sushimen, receosos de um possível desabamento de corpos, esforçavam-se para interpretar os mais incríveis pedidos:

 

— Aí, moço! Faz uns dez funilzinhos desses aí pra mim, tô com criança aqui!

— Eu estou de pé aqui há mais de 20 minutos! Pelamor de Deus!

— Ai meu pé, ô corno!

— Tem gente de idade passando mal, abre espaço aí!

— Aí, japinha, manda quatro sopinha, façavor!

 

Eu e a Vanessa nos olhamos com aquela eloquencia que somente certos olhares têm, e não precisamos proferir nem versos nem verbos. Apertamos nossas mãos firmemente e, no exíguo espaço em que nos encontrávamos, giramos sobre os calcanhares e pegamos o caminho de volta por entre os selvagens. E assim fomos, operação de guerra, nos achatando entre costas, bundas e peitos, abrindo brechas na compactação humana. Tudo o que queríamos era sair com saúde do outro lado.

 

Estávamos quase na porta, já ansiando pela brisa da noite fresca, quando uma mão me agarrou o ombro. Era o gerente-amigo, feliz da vida, com a camisa mostarda, suada, colada ao corpo.

— Que prazer, meus queridos! — berrou, com aquela alegria que só os gerentes de restaurante em dia de inauguração têm — Vocês estão se divertindo, sendo bem servidos?

A Vanessa apertou a minha mão.

— Oi? Ah… sim, muito! — eu disse.

— Ué, mas não estão comendo nada?

— É que a gente… bem… é que… precisamos ir.

— Imagina, nada disso! Venham já pra cá. Vou arrumar um combinado completo pra vocês. Querem saquê ou preferem cerveja? Vejam a animação da turma!

Sim, era uma turma realmente animada aquela, e quando vimos tínhamos sido arrastados de volta pro meio da animação…

 

Meia hora se passou. Na base do dedo no olho e do hashi na orelha, acabamos conseguindo um prato com alguns sushis amassados e dois guaranás.

 

Agarrados ao sustento como o leão ao pescoço do gnu, fugimos para a área externa e — Deus é grande — achamos um naco de mureta, 30 centímetros só pra gente!

 

Cravamos nosso prato ali e, em pé, fomos comendo com uma mão e nos segurando com a outra, para não sermos levados pela correnteza de corpos que passava atrás da gente.

 

De repente, não mais do que de repente, nos vimos conversando com dois casais assustados, pregados na mureta ao nosso lado. Descobrimos que eles tinham enfrentado o mesmo processo: o convite, o susto, o esmagamento, a tentativa de fuga e a captura.

 

Cerca de uma hora depois, parte da manada já havia escoado porta afora, então conseguimos novos pratos e até — era verdade! — saquê gelado.

 

Milagres acontecem. Agora posso atestar. Tanto é que acabamos aquela noite de barrigas cheias e doídas de tanto rir das desgraças uns dos outros.

 

Antes de partirmos, trocamos e-mails e telefones, com a esperança de que um dia possamos dividir, quem sabe, uma outra mureta numa dessas bocas-livre por aí.

 

***

 

Essa crônica é parte integrante do 2º livro do autor,

A Idade do Vexame & Outras Histórias – Pontes/ 2011.

 

 


Compartilhe: