01/05/2016 16:52

Meu Prazer Solitário

 

Do meu prazer solitário não falo mais para ninguém. Pelo menos não pessoalmente, cara a cara. Tenho medo de represálias violentas. Já abri a boca algumas vezes e me arrependi. Fui ameaçado por estar defendendo uma barbaridade dessas em público.

 

Certa vez, por conta disso, recebi uma carta anônima escrita com letras coloridas recortadas de revistas, ameaçando a mim e a minha família. Acho que só não me agrediram ainda porque o pessoal sabe que sou faixa preta. Mas uma pedrada pelas costas é sempre um perigo. Melhor não facilitar. 

 

Sendo assim, direi do meu prazer solitário apenas por aqui, escondido por detrás das páginas desta revista. E se me capturarem e me interrogarem a respeito, com requintes de crueldade, dependurado de cabeça pra baixo numa sala escura, negarei: “Não fui eu quem escreveu aquilo! Foi um cover, um falsário!”.

 

Pois bem, falarei só mais esta vez sobre este que é o meu prazer solitário: o FRIO! Pronto, falei. 

 

Falei e já sinto como se pudesse ouvir o rosnado de ódio dos leitores, esmigalhando a revista e jogando-a por cima do ombro, injetando os olhos de sangue, com uma veia saindo do lado do pescoço. Não sei o que acontece, mas se declarar amante do friozinho provoca nas pessoas monstruosos sentimentos de destruição. Por que será?

 

Mocinhas antes delicadas e meigas, quando ouvem minha defesa do inverno e do tempo nublado, e minhas críticas ao verão e ao sol, se armam de paus e garrafas quebradas para esfolar e matar. 

 

Sinto-me só. Uma alma única e solitária. 

 

Um homem que, quando o dia amanhece nublado e os termômetros marcam 11 graus, abre a janela, sorri que nem em comercial de plano de saúde e diz: “Que lindo dia!”. 

 

Sim, eu sei. Sou o único com essa predileção, pelo menos aqui em São Paulo, que crê que um dia nublado e frio pode ser um lindo dia. Havia outro como eu, mas soube, pelo noticiário, que ele se matou, coitado. Sete facadas nas costas.

 

Bom, agora que já mexi no vespeiro, vou adiante! Sou eu que não entendo como você aí, que me lê enquanto esquenta a ponta desse espeto de churrasco na boca do fogão, pode gostar daquele calor insuportável, daquele solão abrasador na cabeça, que cola o asfalto da avenida na sola do seu sapato, enquanto você corre e trabalha que nem louco por essa metrópole de cimento, de roupa desconfortável, suando e secando, suando e secando, suando e secando... Fadado a terminar o dia cheirando a bacon defumado.

 

Honestamente, nada justifica tamanho mau-gosto. Mau-gosto coletivo, o que é mais grave.

 

Agora que já cutuquei onça com vara curta, fico por aqui. Temeroso.

 

***** 

 

Crônica publicada no livro "A Invasão dos Horácios" - Pontes/ 2013

Ilustração: Tales Alexandro

Fale com o Cruz: cancruz@terra.com.br 

 


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