05/04/2016 21:37

O Rui

 

 

— Oi, Cesar, tudo bem? Você se lembra da Vilma?

 Cumprimentei as duas moças, mas só uma era minha conhecida. A tal Vilma eu nunca tinha visto na vida, pelo menos eu achava que não...

 — Cesar, quanto tempo!

 Dureza encontrar alguém que conhece você e você não tem a menor ideia de quem seja. Ela própria percebeu minha desorientação e tentou me socorrer:

 — Sou a mulher do Rui!

 Agora as duas mulheres sorriam e balançavam ligeiramente as cabeças para cima e para baixo, como se pensassem “Agora sim ele vai se lembrar!”. Piorou. Além de ter que lembrar dela, eu agora teria também que lembrar de um Rui.

 Rui, Rui, Rui... Não me lembrei, mas achei melhor disfarçar:

 — Ah, sim, claro...! Como vai você?

 Meu reconhecimento fajuto não pareceu convencer, até porque a pergunta certa seria “Como vai o Rui?”. Mas eu não poderia me arriscar. E se o tal Rui tivesse morrido? Ou lascado a cabeça numa quina e ficado inválido? Imaginei-a curvando a face e, com uma lágrima escapando pelo canto do olho, perguntando com a voz trêmula “vo-vo-você não soube?”. Muito arriscado.

 Então logo começou um papo sobre coisas de anos atrás, e ali pelo miolo daquela prosa foi que eu me escondi bem quietinho, à espera de uma luz, de uma palavra que me desse um norte, uma referência. Quem seria afinal de contas o bendito Rui? O Rui das minhas divagações surgiu sem rosto, como aqueles perfis sem foto do Facebook. O meu era assim. Uma mera moldura de Rui, vazia por dentro, sem face, sem cores, cinza. “Quem é o tal Rui, meu Deus!?”.

 Eu iria me estrepar, era uma questão de tempo. Em instantes a tal Vilma me faria alguma pergunta, ou o assunto poderia derivar para a vida do Rui e ficaria claro que eu não tinha a menor ideia de quem diabos era ele. Minha esperança é que ela cuspisse alguma frase mágica que destravaria a minha mente adormecida.

 “Putz, Claro! Grande Rui! Como eu pude me esquecer!”

 De repente, um milagre! Algum santo protetor dos esquecidos resolveu vir em meu socorro. O golpe do Carvalho, como eu não pensei nele antes? 

 — Com licença, senhoras, meu celular... — anunciei.

 Enfiei a mão no bolso e saquei o aparelho.

 — Alô!... Oi, Carvalho, como vai?

 As duas pararam de falar e ficaram me olhando, atentas.

 — O quê?! Mas como?... Não admito isso, Carvalho! É inaceitável e...

 Fiquei uns segundos quieto, só murmurando, de cenho franzido, como se estivesse escutando uma explicação esdrúxula vinda do Carvalho. Então explodi, aos berros:

— Carvalho! Pare de falar e me ouça: vá até lá e diga que vou processá-los! Ouviu bem? Pro-ces-sá-los!

 Então, como se o Carvalho houvesse discordado da minha autoridade, fui imperativo e duro:

 — Carvalho, não discuta comigo! Quero que comunique que os porei na cadeia! Todos eles! E estou indo praí agora mesmo! — “Pek!” Fechei o aparelho, bufando. As duas moças tinham engolido os sorrisos e me olhavam mudas, assustadas.

 Suspirei e sorri para elas. Com essa minha permissão elas sorriram de volta, um par de sorrisos temerosos.

 Acabava-se assim a minha sinuca de bico. Depois daquela discussão com o Carvalho ninguém mais se lembraria que em alguma parte deste mundo havia um sujeito chamado Rui.

 — Meninas, mil, mil desculpas, mas estou com problemas no trabalho...

 — Oh, sim, claro, claro!

 Dei um beijo no rosto de cada uma e parti com ares de quem carrega grandes responsabilidades. Enquanto eu ia me afastando, ocorreu-me que, para verdadeiramente consagrar a vitória da astúcia sobre a memória, ainda faltava um mero detalhe. Já distante, virei e chamei as moças que partiam. Viraram-se para me olhar.

 — Vilma! — gritei — Manda um abração meu pro Rui!

 

***** 

 

Crônica publicada no livro A Idade do Vexame & outras histórias - Pontes/ 2011

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