20/03/2016 21:04

Um Almoço du Carvalho

 

Era hora do almoço e eu estava a trabalho em Curitiba. Sem conhecer nada por lá e morto de fome, entrei no primeiro restaurante que achei pelo caminho. Na entrada havia uma roleta. Empurrei na barriga e entrei. Já eram 13h e eu, que tinha recém-desembarcado, só tinha no estômago a miserável bolacha que a Gol oferece no avião.

Ao sentir o cheiro de comida o que parecia ser um ser humano aprisionado dentro de mim se contorceu, produzindo um ruído grotesco, que torci para ninguém ter ouvido. 

Havia um monte de gente almoçando no local. A entrada à direita levava ao buffet. Uma pilha de pratos, talheres e bandejas me aguardavam. A questão é que eu precisava guardar minha pesada pasta em algum lugar para poder me servir. Eis que uma mocinha uniformizada e solícita pareceu ler meus pensamento.

— Quer que guarde sua maleta?

Agradeci e fui à luta. Montei meu kit: bandeja, prato e talheres. Entrei na fila.

Ambiente refrigerado, comida cheirosa. Um ótimo restaurante. Era um quilo diferente, aquele, percebi de saída. Em vez do cliente se servir, havia moças atrás das mesas que iam pondo a comida no prato das pessoas, como no exército. Coisa de curitibano, supus.

Chegou a minha vez e pedi capricho na carne de porco, que parecia ótima. Feijão com arroz, um montão, falei, quando a moça de touca ameaçou me servir uma colherinha de nada. Alguns passos laterais diante daquele pelotão e meu prato já estava vergonhosamente cheio, mas ainda coube a farofinha num canto e um pão inteiro, equilibrado sobre o arroz.

Havia pudim de leite e doce de abóbora. Peguei o pudim. Adiante uma máquina do tamanho de uma geladeira oferecia três tipos de sucos. Enchi meu copo com o de caju.

Onde estaria a balança? Não havia balança.

Reparei que as pessoas iam se sentando e comendo sem pesar o prato. Ah, esses curitibanos são espertos, usam o sistema coma à vontade, conclui, feliz, já sabendo que se fosse por peso a coisa ficaria mais cara, pelo menos naquele dia.

Sentei-me diante do bandejão e ataquei a comida feito um mouro, do jeito que sempre faço quando não há ninguém conhecido por perto.

Grupos conversavam animadamente. A coisa estava mesmo cheia. Logo meu suco acabou e me levantei para pegar mais, aproveitando para reforçar a carne de porco, que estava uma delícia, como já falei. 

Numa mesa próxima à minha, umas moças me olhavam e davam risadinhas. Lembrei delas, tinham entrado junto comigo. Será que me acharam bonitão? Logo eu saberia... Do outro lado uns caras comentavam algo, pelo jeito a meu respeito. Povo reparador, esses curitibanos, pensei.

Foi aí que algo me chamou a atenção. Reparei que todos usavam crachás dependurados no pescoço. Então duas moças passaram bem ao lado da minha mesa e consegui ler no crachá de uma delas: “Roberta Lima”, e logo abaixo "Sadia". Olhei ao redor. Parei de mastigar. Todos levavam crachás da Sadia.

Todos. Menos eu.

Eu tinha entrado no restaurante exclusivo para os funcionários da empresa. Me encolhi atrás do prato. E agora?

Voltei a comer.

Aquela tênue sensação de alegria que eu sentia se desmanchou dentro de mim. E agora? O melhor era comer com calma, depois pensar no que fazer para sair com alguma dignidade dali.

Fui comendo e pensando. E observando. Não havia janelas nem portas nos fundos que permitissem uma evasão. Lá na frente, as roletas. Só as roletas. Uma para entrar e outra para sair. Elas me olhavam, as roletas.

E agora?

Eu poderia tentar sair à francesa, mas e se a roleta travasse? Pensei que o melhor seria procurar a moça que guardou minha maleta, explicar o equívoco e dizer que eu gostaria de pagar. Gostaria não, fazia questão! Poderia até mesmo levar a mão ao bolso traseiro, para reforçar minha intenção de sacar a carteira. Poderia sacudir notas no ar!

Pronto, isso resolveria o problema.

Tomei feliz um gole gordo do suco, que ajudou a descer o feijão que estava colado na garganta seca.

De repente, imaginei aquela moça sorridente, solícita até demais, falando alto, simpática como nunca: “De forma nenhuma, senhor!”, diria ela. “O senhor comeu aqui por puro engano, não, não! Não precisa pagar nada, pode ir! Pode ir embora sem pagar!”. Aquele “sem pagar” ecoaria grotescamente pelo ar, três ou quatro vezes, como nos filmes de caverna. E todos silenciariam e pregariam seus acusatórios olhos sobre mim. Então, uma explosão de risadas. As pessoas se dobrariam de tanto rir. De mim. Teriam assunto para a semana toda. “Você não imagina o que um careca idiota fez no refeitório hoje!”, contariam a um que não desceu pro almoço, e pra um cliente no dia seguinte...

Gelei só de pensar. Não, definitivamente não. 

Raspei o finzinho do prato. E agora?

A melhor coisa a fazer seria sair naturalmente, como todos estavam fazendo. Claro, quem não deve não teme! Então a minha mente produziu a imagem da moça sorridente escondendo os dentes brancos e chamando, enérgica “Psiu, psiu! Ei, ei, você aí! De camisa branca, sem crachá! Aonde o senhor pensa que vai sem pagar a conta?!”.

Limpei a boca com o guardanapo e larguei-o sobre o prato vazio.

Eu estava mesmo enrolado.

Avistei a rua e desejei estar lá, naquela desejada calçada, sob aquele sol. Por um instante entendi como os presos se sentem. Passei as mãos na cabeça e olhei ao redor. O que fazer?

Comi o pudim de leite em grandes colheradas para ver se me vinha uma luz. Entornei o finzinho do suco e me ergui da mesa, agora convicto. Enfim, a solução. Usaria o infalível golpe do Carvalho. Fui até o aparador e peguei o café-cortesia. Bicando o café, fiz que atendi ao celular. Era o Carvalho, vejam só.

— ALÔ! — disse eu, em alto e bom som. — Carvalho! Como vai você? 

As pessoas silenciaram um pouco e me espiavam. Esperei uns segundos, como a ouvir o Carvalho falar. Então meu sorriso de satisfação por falar com ele foi se desfazendo, dando lugar a uma boca séria, olhos arregalados, indignados, subitamente irados.

— O QUÊ, CARVALHO?! — subi o braço e deixei-o cair — Carvalho, de novo isso! Você não aprende? Olha, se esses caras insistirem com isso, vou pedir ao Mendonça a exoneração, compreendeu? Exo-ne-ra-ção!

Agora não alguns, mas todos me olhavam. Queriam compreender o porquê daquele sabão no pobre do Carvalho. E eu fui me deslocando pelo salão, carregando a bandeja, com o celular entre o ombro e a orelha. O Carvalho dizia coisas absurdas do outro lado e eu balançava a cabeça, negativamente. Havia agora um silêncio enorme no recinto. Transformei-me numa momentânea atração. Depositei a bandeja numa abertura vaga da estante metálica e fui me encaminhando lentamente para a saída, ocupadíssimo com a problemática que o Carvalho fazia o favor de me trazer.

— Carvalho, veja bem... — dizia eu agora, tentando ser consciencioso, a mão segurando a nuca, agitado, os olhos revirando para o alto, como quem pede a Deus que lhe dê paciência para suportar as burrices de um Carvalho qualquer.

As mocinhas dos sorrisinhos me olhavam sérias. Fingi que não vi, me encaminhando em direção às roletas.

— Carvalho! Vocês querem me enlouquecer?! É isso??

Junto à roleta, a mocinha uniformizada, entendendo-me absolutamente atarefado, já havia buscado a minha pasta e, se adiantando, a estendia a mim, como uma secretária eficiente faria com o presidente da corporação. Desenhou um até-logo mudo com os lábios sorridentes. Sorri para ela como quem agradece, meio de lado, meio despercebido, ocupado demais... "afinal, o Carvalho...”

Então, para desestimular quem estivesse, por acaso, pensando em me interpelar, assim, de última hora, mostrei que posso ser duro, muito duro.

— Não discuta comigo, Carvalho! Ou vou agora mesmo falar com o Mendonça, agora mesmo!

Empurrei a roleta com a barriga (cheia) e me adiantei em direção à calçada ensolarada, já atravessando a rua, sem pressa, atarefado e indignado, muito indignado, indignadíssimo...!

 

***** 

 

Crônica publicada no livro A Idade do Vexame & outras histórias - Pontes/ 2011

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