23/02/2016 21:14

Dia de treinamento de vendas

 

 

Crônica utilizada na cartilha do

programa ViaRápida Emprego¹

 

 

Sábado cedinho São Paulo é sempre uma delícia, e estava especialmente gostoso naquela manhã, cuja combinação de frio e sol produzia um efeito relaxante. Eu tinha acabado de deixar minha mulher no trabalho e dirigia de volta para casa, na companhia da minha filha de 2 anos, que ia na sua cadeirinha no banco traseiro. Ali na Av. Washington Luiz, sentido centro, na saída que dá acesso à Av. Indianópolis, há uma concessionária de veículos. Resolvi parar. 

– Filha, vamos ver um carro?

– Cárru! – ela reagiu, animadinha.

Eu precisava mesmo pesquisar preços para trocar o nosso, que já estava pela hora da aposentadoria. Estacionei e desci com a  Michele no colo. Avancei até a porta envidraçada, empurrei-a e ganhei a loja. Salão amplo, limpo e cheiroso.

Ficamos aguardando que alguém viesse nos receber. Um grupo de cerca de vinte funcionários uniformizados comiam, bebiam e conversavam a uma certa distância, ao redor de mesas encimadas por uma plaqueta onde se lia “Atendimento ao Cliente”. Ficou claro que nos viram, mas como ninguém se prontificou, resolvi me virar por conta própria. Segui a seta que indicava “Seminovos”.

Havia uns vinte carros usados no salão, de diversas marcas. Soltei  a Michele no chão e deixei-a correr um pouco, enquanto me detinha a observar latarias, pneus e a abrir a porta de um ou outro para verificar os estofamentos. Gostei de um em especial, muito bem conservado.

– Michele, vem aqui ver se gosta deste carro! – chamei, mas minha filha parecia mais interessada nuns panfletos que encontrou sobre uma mesa e que nessa altura já estavam esparramados pelo chão.

Foi então que uma mocinha deixou o animado grupo de funcionários e veio na minha direção. Enfim serei atendido, pensei, e já fui me adiantando, todo sorridente:

– Bom dia, que bom que você veio me ajudar, moça. Qual o preço deste carro aqui?

Só aí percebi que a moça parecia não compartilhar do meu entusiasmo. Semblante sério, me fitou calada por uns segundos. Pensei que ela poderia estar tentando se lembrar do preço do veículo. Engano meu.

– O senhor desculpe, mas não pode ficar aqui. A loja ainda está fechada.

Envergonhado, engoli na hora o sorriso idiota.

– Mas é que a porta estava aberta e eu ach...

– Aos sábados só abrimos às 9h, senhor. E ainda são 8h10 – enfatizou, ríspida, apontando com o dedo o relógio no alto da parede. Por um instante eu não soube o que dizer. Ela me olhava calada, esperando que eu tivesse a fineza de me retirar por conta própria. 

– Poxa, mas há tanta gente aí... Será que um de vocês não pode verificar apenas o preço do carro? – pedi, e minha voz soou como a de um homem que pede uma esmola.

– Infelizmente agora não dá. Estamos no meio do cofibreiqui de um treinamento de vendas.

– Humm... treinamento de vendas, entendo. Que bacana! Posso te perguntar uma coisa?

– Claro.

– O que vocês aprendem nesses treinamentos de venda?

– Aprendemos técnicas para vender mais e atender melhor o cliente.

Ficamos olhando um para a cara do outro, imersos num constrangedor e significativo silêncio, que no entanto não parecia ter para ela o mesmo significado que tinha para mim.

– Volte mais tarde, poderemos atendê-lo depois das 9h – sentenciou.

– Oh, não, não, muito obrigado! Prefiro não atrapalhar mais.

Peguei a Michele no colo e fui saindo, seguido pela moça que ia me escoltando de perto, para se certificar de que eu não iria voltar. 

Atravessei a turba barulhenta de vendedores, que comiam torradas, bolos e bebiam seus cafés quentinhos e cheirosos. Ao nos verem passar, paralisaram por um instante. As bocas, constrangidas, suspenderam seu mastigar; as mãos, não tendo onde se esconder, permaneceram erguidas, imóveis no ar, como numa foto, segurando os comes e bebes.

A Michele deve ter ficado com vontade, pois inclinou o corpo em direção à mesa, esticou o bracinho e gritou, rompendo a quietude:

– Bolo, papai!

– Calma, filha, papai compra bolo pra você em outro lugar. 

Como um bicão retirado pela segurança, fui seguindo escoltado através dos intermináveis quilômetros que pareciam me separar da saída.

Após cortar aquele espesso silêncio, abundante de olhares, terminamos no estacionamento gelado, a Michele e eu, sem café quente nem calor humano, com a porta de vidro sendo fechada atrás de nós. Cléc-Cléc! Dessa vez à chave. 

Afinal, ainda não eram 9h.

 

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Contato: cancruz@terra.com.br  

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¹A crônica acima me foi solicitada pelo Governo do Estado de São Paulo, por intermédio da Fundação Carlos Vanzolini, para uso no programa intitulado "Via Rápida Emprego", programa destinado a capacitar profissionais para o mercado de trabalho e ingresso na iniciativa privada.

A cartilha de treinamento, com 90 páginas, foi elaborada pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com a Fundação Carlos Vanzoni.

O texto acima está no capítulo "ATITUDES DE UM VENDEDOR", na pág 28. Após o texto há uma série de perguntas aos alunos sobre a crônica. Para visualizar a cartilha na íntegra acesse o hiperlink abaixo:

ViaRápida Emprego - Vendedor do Comércio Varejista

 

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Concepção do programa e elaboração de conteúdos Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação

Gestão do processo de produção editorial Fundação Carlos Alberto Vanzolini

Realização: SECRETARIA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Governo do Estado de São Paulo

 

 

 


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