21/02/2016 21:31

Com o fim de semana para descansar

 

Toda semana é a mesma coisa. Pulo a segunda só pra dar um refresco mental, aí na terça, logo no café da manhã, faço a tradicional pergunta pra Vanessa:

 

– Amor, quais eventos sociofamiliares-operacionais teremos para o fim de semana?

 

Adoro ouvir a resposta, que sempre me traz uma doce, ainda que ilusória, esperança.

 

– Nadinha! Não temos nada neste fim de semana, acredita?

 

Aí ficamos os dois a comemorar, no melhor estilo me-engana-vida-que-eu-gosto, o fato de que poderemos descansar, tão somente descansar, no fim de semana que vem lá ao longe. Delícia das delícias!

 

A segunda indagação a respeito do assunto costumo fazer 36 horas depois da primeira, na noite de quarta, no jantar:

 

– Amor, permanecemos com zero-ocorrências de eventos sociofamiliares-operacionais pro próximo fim de semana?

 

É aqui que o sonho começa a se diluir.

 

– Bom, temos que fazer supermercado, né, Cesar, que a geladeira só tem ar frio dentro, e também levar a Michele no parque sábado de manhã, que a gente prometeu. E não podemos esquecer de dar um pulinho no shopping, coisa rapidinha, só pra trocar aquela blusinha que não serviu. Ei, não faz essa cara, ainda dará pra descansar bastante, não podemos reclamar!

 

E assim nos satisfazemos, iludidos de que ficará só nisso, e vamos mastigando sorridentes nosso jantar.

 

Na quinta eu nem preciso perguntar, a Vanessa costuma me trazer por conta própria as novas novidades para o fim de semana.

 

– Cesar, a mãe da Aninha, amiguinha da escola da Michele, ligou. Vai fazer uma festinha no salão de festas do prédio. Temos que ir, tá? Ah, domingo vai ter um churrasco na casa da Alice, que trabalhou comigo lá na outra empresa, ela faz questão da gente.

 

Na manhã da sexta, enquanto ponho no papel o já extenso cronograma de atividades do fim de semana, para ver se acho uma brecha para esticar o esqueleto no sofá, geralmente a Vanessa surge por cima do meu ombro dizendo:

 

– Ah, aproveita e escreve aí que o Moacyr vem com a mulher e as crianças aqui no sábado à noite, estão com muitas saudades da gente!

 

Escrevo mais esse compromisso, obediente e resignado.

 

Diante da folha corrida de tarefas e eventos, vejo, com entusiasmo, que no sábado terei um intervalo de 17 minutos à tarde, entre o shopping e a festinha. Faço uma carinha sorridente ali no papel, com a caneta colorida; mas logo constato que não poderei dispor daqueles ótimos instantes para descanso, visto que possivelmente terei de destiná-los ao uso do banheiro. Porém, no domingo, poderei dormir até as 8h20, o que já é excelente, e o começo da noite de sábado terei inteiros, só meus, 11 minutos entre o retorno da festinha e a chegada da família do Moacyr. É quando a Vanessa se aproxima e diz:

 

– Ah, já que estaremos no shopping, vou fazer uma escova no cabelo, que não dá pra ir assim na festa, né? E aproveitando que estaremos lá mesmo, vamos lembrar de comprar o presentinho da Aninha!

 

Com as esperanças definitivamente enterradas, só me resta esperar a segunda chegar pra descansar do fim de semana. Trabalhando.

 

***** 

 

Crônica publicada no livro "A Invasão dos Horácios" - Pontes/ 2013

Ilustração: Tales Alexandro

Fale com o Cruz: cancruz@terra.com.br 

 


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