04/02/2016 20:58

O Bom Ladrão

 

A violência está mesmo pela hora da morte. Em meio à brutalidade dos criminosos, que se materializa mesmo diante da vítima rendida, eis que surge um novo personagem, que chamarei aqui, como no Evangelho, de “o bom ladrão”. Criminoso fino, elegante e gentil, de nível superior, leitor de filosofia, sociologia e direito, segue fielmente os fundamentos universais da ética e da humanidade, e sabe onde começam e acabam seus direitos de meliante. 

 

Num recente assalto a um restaurante, o vulgo arrastão, a inusitada operação foi digna de etiqueta britânica. Segundo as vítimas, o bando chegou às 22h e anunciou: “Um minuto da atenção de todos! Isto é um assalto e não queremos machucar ninguém. Basta que não haja gritos e que todos ponham as mãos sobre a mesa, inclusive o senhor aí de azul, isso mesmo, agora sim, muito obrigado...”. 

 

Sem indelicadezas, o assalto correu na mais perfeita paz. Só com as bocas sorridentes para fora das máscaras, os ladrões recolhiam celulares, dinheiro e relógios. A cada objeto coletado diziam “muito grato!”. Segundo relatou alegremente uma idosa, devidamente assaltada, um fez até festinha no cabelo do seu neto. Antes de partirem, o porta-voz se virou e desejou a todos: “Fiquem com Deus!”, ao que alguém teria completado “Amém!”

 

Eu poderia até duvidar disso, mas aconteceu com o meu amigo Vagner. Ele saia de uma reunião quando foi abordado na rua por um rapaz bem-vestido que, insinuando uma arma dentro da jaqueta, disse: “Bom dia, isto é um assalto; por favor, passe-me o celular”. O Vagner, veterano, percebendo se tratar de um ladrão fino, arriscou: “É o meu instrumento de trabalho, sem ele posso perder o emprego, tenho família pra sustentar...”.

 

Entreolharam-se em silêncio. Então, num gesto nobre de desprendimento, o larápio alertou: “Dessa vez vou deixar quieto, mas vê se não fica vacilando por aí”.

 

Meu amigo agradeceu e eles se despediram, como cavalheiros, cada um para a sua lida diária.

 

 

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