17/01/2016 17:31

A Solidão do Escritor

 

 

Num país que não lê, a solidão do escritor é atroz e brutal. Só entende isso quem escreve. Quem não escreve jamais me entenderá. O fato é que não há na vida das pessoas espaço para a leitura, raras são as exceções.

Vivo esse deserto. Escrever para mim é ao mesmo tempo o meu prazer e o meu martírio. Escrever é a minha catarse, meu hobby, mas que quando se materializa nessa solidão desumana passa a ser a bola de aço nos meus tornozelos, o cinto de silício sob minhas roupas. Faço algo para os demais: escrevo. E escrevo para ser lido. No entanto ninguém liga, ninguém se interessa. Ninguém lê. A dura conclusão a que cheguei: se eu parar de escrever hoje ninguém reparará.

Amargo, magoado com essa estúpida realidade, finjo que não escrevo para ninguém além de mim mesmo. Mentira. Sou continuamente sufocado por esse grito que não posso dar. Ou que dou, mas que ninguém escuta. Sofro a esmagadora dor desse abandono, de fazer uma coisa para a qual não há demanda nem interesse. Fato concreto: não me pediram para escrever coisa alguma. Tenho mesmo que segurar sozinho.

Optei por muito tempo por continuar me iludindo. Mantinha-me surdo para não ouvir o brado da realidade e assim seguia, como um cego, mendigo das letras, agarrado a uma cândida esperança de reconhecimento, implorando pateticamente, insistindo, disparando inoportunos convites a amigos, enviando avisos, mostrando recortes que não me foram solicitados… Todas coisas que eu sabia que tinha que parar de fazer com urgência, mas não conseguia; prejuízo que já existia, que só faltava ser realizado, mas que era paralisado pelo medo da solidão que, temia, pudesse se agravar.

Mão estendida em concha, parecia ansiar a todo instante, nas rodas de conversa, por uma oportunidade de mencionar meus escritos; quem sabe alguém puxaria o assunto? Quando o faziam, em misericórdia a minha agoniada mendicância, eu procurava imprimir um quê de charme, de nem-te-ligo, mas era aquele o momento íntimo da glória, a suprema realização. E ali, em meio àquele equívoco social, eu me agarrava como um desgraçado náufrago se agarraria a uma boia, e, com a realidade ofuscada pela luz do orgulho, falava, explicava e gesticulava freneticamente… E, claro, quando me dava conta todos já haviam partido.

Mas quem escreve é teimoso, autista, como diz Cristóvão Tezza. Não sou exceção. Lancei quatro livros, que bondosos amigos compraram, mas só uns poucos de fato o leram. Mais uma dor para a coleção do escritor.

Mas a ardência da vergonha parecia não ser suficientemente poderosa para me apartar daqueles vexames. E assim, os dias se sucediam para mim, que ia vivendo esse amargo retiro compulsório para dentro de mim mesmo, essa humilhação autoimposta, esse perpétuo solilóquio tragicômico, risível e inconfessável do escritor que tem em si mesmo o seu único leitor.

E hoje, mais de uma década depois, alguma coisa mudou. Já me importo menos com a audiência, não porque não gostaria que ela existisse, mas pela simples constatação de que não há o que eu possa fazer para produzi-la. Sei que apenas 10% dos exemplares do meu novo livro, que de saída foi comprado basicamente por amigos e conhecidos gentis, serão lidos. 

Até quando escreverei não sei dizer. Acho que enquanto tiver algo a dizer, ainda que ninguém leia.

 

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