A declaração foi de uma sinceridade cortante. Em uma resposta, o treinador desse Barcelona de sonhos, Pep Guardiola, resumiu o que milhões de brasileiros viram, estupefatos, pela TV ou ao vivo na gelada Yokohama.
“Meus avós e meus pais costumavam me contar que era assim que os brasileiros jogavam futebol”, disse Guardiola, minutos após seu time arrasar o Santos e conquistar de forma indiscutível o Mundial de Clubes. O detalhe é que a pergunta havia sido em relação à Holanda de 1974: se, por acaso, aquela seleção seria a inspiração desse Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta e cia. Mas o treinador do Barça respondeu citando o Brasil.
Outro detalhe captado pelo treinador catalão e que deixa evidente a perda de rumo de nosso futebol em algum lugar do passado. Segundo Guardiola, o que o Barcelona faz é reunir seus talentos em torno da bola. “Pode parecer que nossa movimentação em campo é enorme, mas, na verdade, é a bola que se movimenta muito rapidamente. Nossa ideia é colocar os jogadores ao redor da bola e jogar.” Simples assim.
Houve um tempo em que jogar futebol no Brasil era assim. Antes de correr, marcar, fazer composições táticas e executar sistemas de jogo que mais parecem códigos numéricos, nossos jogadores se reuniam em torno da bola e jogavam. Essa é a maior lição que a estonteante apresentação do Barcelona sobre o Santos, nosso melhor time, deixa para jogadores, treinadores, dirigentes, analistas e torcedores.
Quando alguém falou de disparidade econômica, argumento favorito da cartolagem brasileira para disfarçar a incompetência, Guardiola matou no peito e devolveu: “Nosso time que foi a campo hoje tinha nove jogadores formados em nossas categorias de base. Um time formado praticamente a custo zero”.
Claro que, para jogar como esse Barça, é preciso reunir talentos como os geniais Messi, Xavi e Iniesta e um bando de ótimos atletas como os que cercam esses supercraques. Agora, pouca gente sabe que o projeto, essa ideia de jogar futebol, vem sendo implantada há 30 anos.
Enfim, não quer dizer que o futebol brasileiro acabou, virou saco de pancada, nada disso. Mas é preciso humildade para reconhecer que nossas raízes foram abandonadas em algum momento lá atrás, no nascedouro, na formação de jogadores. E que hoje há um time de extraterrestres que emula os melhores momentos do futebol brasileiro. Esse time vive na Catalunha, uma encantada província espanhola que soube capturar o espírito brasileiro.
Neymar contundente
Neymar esteve apagado e não pode ser julgado por uma partida. Mas mostrou que é grande também na avaliação, ao proferir a melhor frase sobre o jogo dita por um jogador santista. “Tomamos uma aula de futebol. O Barcelona nos ensinou a jogador futebol”, disse o garoto, segundos após a chacoalhada.
Concentração
Enquanto os jogadores santistas estiveram confinados em hotéis no Japão durante o torneio, os barcelonistas andaram sozinhos de trem e metrô, levaram esposas e namoradas, jantaram, descontraíram-se e espalharam fotos desses momentos pelas redes sociais. Outra prova de que concentração não ganha jogo.
Para 2012
O Santos tem de pensar em algumas adaptações para 2012. O time precisa cercar seus talentos de jogadores com mais intensidade, técnica e física. Segue sendo, talvez, a melhor aposta brasileira em termos internacionais, mas há uma disparidade técnica grande entre os melhores e os nem tão geniais assim.
Nó tático
Ao classificar como um 3-7-0 o esquema tático do Barcelona, o excelente Muricy Ramalho talvez tenha sido traído pelo estado de choque que se abateu sobre o time após a avalanche catalã. Ele queria dizer que um time não precisa ter muitos atacantes em campo para ser ofensivo.
Acontece que, mesmo sem um atacante de fato em campo, o Barça atacou o tempo inteiro. Daniel Alves é lateral no papel, mas jogou como atacante. Thiago é meio-campo e jogou como ponta-esquerda. Messi? Bem, Messi não precisa de explicação.
Quantas vezes Fábregas, que é volante na carteirinha, apareceu na área do Santos? E Xavi, Iniesta?
A questão não se resume a escalar um número x ou y de jogadores desta ou daquela função. Trata-se de dar a esses jogadores a capacidade técnica e de atacar e defender com a mesma intensidade e coordenação de movimentos.
A maioria dos zagueiros brasileiros, os santistas incluídos, quando recebe uma bola recuada, livra-se da dita cuja sem cerimônia. Os goleiros fazem o mesmo. O Barça joga, toca, recomeça. Quantas bolas paradas os espanhóis cruzam para a área?
Enfim, é uma questão de conceito. Mas é difícil debater isso com os treinadores brasileiros, hermeticamente confinados a suas convicções.
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