Nem vale a pena ficar analisando o jogo decisivo do Mundial de Clubes no Japão diante de tão flagrante superioridade do Barcelona sobre o Santos. Foram 71% de posse de bola, duas bolas na trave do Peixe, mais de dez oportunidades de gols criadas pelo Barça, que fechou a conta com uma goleada por 4 a 0.
Foi um baile, um show, uma lição de futebol de A a Z, ao fim da qual celebrei a resposta do técnico Pep Guardiola ao ser perguntado sobre como o estilo de jogo do seu time foi desenvolvido: “Nada de especial, a não ser a troca de bola constante entre jogadores de alto nível técnico. Algo como vocês, brasileiros, faziam no passado, segundo me contavam meus pais e avós.”
É o mantra que venho repetindo em todos os meus espaços há anos: os grandes times europeus, sobretudo o Barça, o maior de todos, assimilaram na íntegra nosso estilo de jogar bola, aquele que abandonamos faz tempo demais.
E sempre que digo isso, sou chamado de saudosista, velho gagá e otras cositas mais. Eu e o quase quarentão Guardiola, que, nos últimos três anos e meio, conquistou 13 dos 16 títulos disputados pelo clube catalão. Sempre jogando bonito, dando espetáculo, valorizando a técnica e a arte, em franco desprezo pela força e a correria burra.
Por outro lado, Muricy Ramalho, o técnico brasileiro mais vitorioso nesta primeira metade do século, quando perguntado sobre quais lições tirara dessa goleada, preferiu alfinetar os críticos nacionais, dizendo que, se jogasse aqui com três zagueiros e sete meio-campistas, seria execrado publicamente.
Ou seja, não colheu nenhuma lição preciosa desse confronto que expôs o abismo técnico-tático existente entre o melhor deles e o nosso melhor. Gosto muito do Muricy, como pessoa e profissional. Mas não posso me calar diante desse descalabro.
Incomparável/ Não há como comparar Puyol, Piqué e Abidal (o pretenso terceiro zagueiro, na opinião de Muricy) com Dracena, Bruno Rodrigo e Durval. Pra começo de conversa, o Barça não tem zagueiro algum na prática. Sua última linha de defesa joga na posição dos volantes que, por sua vez, fazem as funções dos meias e esses viram atacantes.
Bem diferente da formação com zagueiros tradicionais, como a santista. Quanto à ausência de um centroavante típico, isso é mais velho do que andar a pé. Essas observações não são uma crítica ao trabalho de Muricy, mas, sim, ao futebol brasileiro. Em especial, aos que se prendem a um passado que nunca nos representou.
Na linha do gol
Neymar mal viu a cor da bola, enquanto Messi marcou dois gols e protagonizou várias jogadas de alta classe. Quer dizer, então, que Neymar é um fracasso e Messi, um gênio? Nem tanto ao mar nem tanto à terra. O argentino foi o que tem sido nos últimos quatro ou cinco anos. E Neymar não foi nem a sombra do craque indiscutível das duas últimas temporadas. Principalmente porque, com aquela retranca toda, o Santos mal conseguiu lançar quatro ou cinco bolas na frente. Mas não só por isso.
Outra lição que Muricy poderia ter tomado da goleada sofrida para o bicampeão mundial é a de que não é só o teatro que oferece belos espetáculos, como disse certa vez. Pode-se ir a campo e ver um time jogar bonito, dar espetáculo e vencer tudo que disputa, como o Barça. Aliás, o time espanhol vence porque joga bonito, sem medo, ofensivamente, com toques e retoques. Uma verdadeira obra de arte.
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