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Afinal, o que é esse 'Lepo, Lepo'? | Diário de S. Paulo

06/03/2014 19:43

Afinal, o que é esse 'Lepo, Lepo'?


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Enfim chegou! Quarta Feira de Cinzas: a quarta mais esperada de todas, é claro, sob a óptica de idoso assumido, um tanto ranheta. Carnaval para mim é coisa de outras vidas. Passou. Sobraram fragmentos de minha infância e juventude, fase da vida onde a preocupação com problemas era nula e a sagração dos dias de folia era esperada com absurda ansiedade, recheada de desejos impossíveis e pitadas de sacanagem pueril. Velhos carnavais.

Ah! Os inesquecíveis dias de Momo em Porto Ferreira, terra querida. É lembrança tênue, porém tão gostosa quanto a fragrância, o gelado, o barulhinho de agitar a lata, e o ato de se empombar com o sorriso insinuante da fêmea alvejada propositalmente pelo jato sem vício da lança-perfume oficial Rodouro, a lata dourada da Rhodia. Tempo onde a sagração maior, o ato mais ousado, era conseguir roubar um beijo da eleita como paixão de carnaval.

Então perguntaria o incauto: ”-Mas por que agora tal ojeriza?”. A resposta é simples. Há muito tempo o Carnaval, desde que se transmutou em Carneval, onde o lema “exibir-se a qualquer custo”, autorreverência narcisista do corpo - onde  abdomens, coxas, bundas, seios e sorrisos, turbinado em todos os tipos de sexo hoje existentes - instituiu-se como o orgasmo-mor. das telas da TV, fotos de jornais e múltiplos sexy- ângulos da Internet. Perdeu-se a identidade do propósito original. A partir do momento em que se passou a enaltecer só o egocentrismo libidinoso, sobrepujando o samba, o colorido, a alegria, a beleza, a tradição e o espírito da festa, a coisa pra mim perdeu a graça. Trocou-se malandragem por sacanagem. Existem exceções? Claro que sim, mas resolvi passar a régua.

'-Mas que anacrônico azedo, puritano do cacete!' apontaria o dedo inquisidor do folião de todas as horas. Antes da resposta faria a ressalva que nunca almejei e nem mereço auréola de santo. Posto isto diria: '- Se o local do baile não vai bem, por que então a festa? . O Brasil, meu querido, vive uma realidade calamitosa. A lei dos mais fortes, a dos mais espertos, da conveniência esperta, dos amigos do rei é o que impera. O país está pastoso, sem planejamento. É dirigido aos solavancos atrelado às conveniências da politicagem fajuta. Ações de governo são tomadas por impulso, de afogadilho, conforme sopra o vento dos escândalos divulgados pela mídia, que, felizmente, ainda consegue nos revelar  calamidades que nossa classe dominante é capaz de fazer por debaixo dos panos. Você tá ligado ao que acontece a sua volta? Nos mandos e desmandos - vide Mensalão? Festejar o quê, cara pálida? Vestir fantasia? Só se for de palhaço. Sua indignação para comigo só se justifica se você for um deles. Caso não, bom carnaval. E 'zéfini!'.

Há um bom tempo, por opção sincera, passamos os cinco dias de folia em retiro domiciliar. É ótimo. Eu, minha mulher e nossos dois gatos. Tiramos o tempo para descansar, fazermos as três refeições juntos, lermos sem compromisso, e, principalmente, curtir um ao outro. Por momentos nos vemos em nossa passarela particular, Mestre Sala e Porta Bandeira, desfraldados na intimidade da alcova, e aí meu amigo, o batuque excita e pega fogo. ”- Dez! Nota dez!” gritaria o locutor dos repentes sexagenários. Bão demais! E por fim, não posso esquecer o quinto elemento fundamental: Morfeu. Este bom amigo nos hipnotiza a todo instante e contabilizo o sem número de horas de preguiça que vagamos em sonhos. Não tem preço!

Nos intervalos vacantes deste ócio merecido aproveitamos os meios de comunicação para contato com o mundo exterior. Ligo a TV e é sempre aquilo.  Em Recife aquela aeróbica irritante dos adeptos do frevo, um mar de gente que não sei como conseguem agachar e levantar sem fazerem um 'strike' coletivo. Alias frevo é que nem pagode: não dá para ouvir mais que três seguidos. O Rio, nosso melhor cartão de visitas, imerso numa sujeirada infernal pela greve dos garis, suspira afirmando: pelo menos as escolas brilharam. Mas vou te contar: ver o desfile na TV é uma penitência, principalmente com a obviedade das perguntas e comentários dos repórteres da Globo. A cereja do bolo seria também escalar o Galvão.  Em Salvador aquela manada de gente aprisionada por cordões, me causa uma desesperada vontade de urinar e não ter aonde ir. É melhor voltar aos filmes, pois os telejornais também só falam de Carnaval e da Criméia. Quem é? Uma passista?

Entretanto, na alienação geral do povão e seus modismos, me deparo com o tal “Lepo Lepo”, megassucesso dos guetos onde tudo anda bem com Bardahl. É mais um hit alavancado pela celebridade patropi Neymar, bom de bola e bem de grana. Não sei o que  significa “Lepo Lepo”, muito menos quem é Márcio Victor. Jamais escutei falar na banda baiana Psirico, mas pelo que vi, fazem um sucesso danado Brasil afora. Não dá para se manter atualizado em tudo. Por que, então, resolvo falar de “Lepo Lepo”? Porque o intérprete declarou em redes sociais que o “Lepo Lepo” seria um “grito contra o capitalismo”. Meu Jesuis Cristinho! Diz a letra: 'Eu não tenho carro, não tenho teto e se ficar comigo é porque gosta do meu Lepo Lepo“. E arremata: “-É uma forma de gritar não ao capitalismo e sim ao amor. Acredito que mulher de verdade prefere o Lepo Lepo.”

Por que gritar não ao capitalismo? Será que o cantor pensa que no capitalismo toda mulher deve ser… interesseira? Será que ele confunde capitalismo com materialismo vulgar? Será que considera capitalismo antagônico ao amor? Nelson Rodrigues dizia que o dinheiro compra tudo, até o amor verdadeiro. Brincadeira (ou não) à parte, o capitalismo é apenas o modelo que permite ampla liberdade aos indivíduos, donos de suas propriedades, exercendo suas escolhas, suas preferências subjetivas em trocas voluntárias no livre mercado. E ponto.

Ele afirma que não tem carro e que espera conquistar a mulherada com seu “Lepo Lepo”, gritando contra o capitalismo. Mas é o capitalismo, meu querido, que vai lhe dar os recursos para que possa comprar carros e ter muito dinheiro com o sucesso da música. Estivesse em Cuba ou na Coréia do Norte, você não poderia ter liberdade para produzir uma música dessas, e depois não poderia se apropriar dos benefícios dela se tivesse a permissão. Capiche? Tinha razão o genial Roberto Campos, tão preciso em seu comentário bem humorado: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês. Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola…” 

(*inspirado em texto de Rodrigo Constantino, 03/02/2014, Veja Digital)



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