Diário de S. Paulo

02/01/2018 - 16:08

Bala perdida mata criança de 5 anos

Arthur Aparecido brincava no quintal durante queima de fogos quando foi atingido por disparo na cabeça. Na terça-feira (2), polícia prendeu suspeito de atirar para o alto

Por: Ana Paula Bimbati
[email protected]

Foto: Reprodução

Era cerca de 0h10. A família de Arthur Aparecido Bensid Silva, de 5 anos, comemorava a virada de ano. O menino brincava no quintal da casa na região do Campo Limpo, Zona Sul, quando foi atingido em cheio por uma bala perdida na cabeça. Na noite desta terça-feira (2), a Polícia Civil prendeu um homem suspeito de ser autor do crime.

Arthur, segundo o boletim de ocorrência, caiu de forma repentina. Familiares disseram que o barulho do disparo se misturou ao som dos fogos de artifício. Em um primeiro momento, pensaram que o menino havia caído e batido com a cabeça no chão, já que estava com sangramento.

No desespero para socorrê-lo, a família deu início a uma verdadeira saga para levar Arthur a um hospital e conseguir uma vaga na UTI.

Sem ambulâncias do Samu disponíveis, segundo os familiares, Arthur foi levado ao Hospital Family, da rede particular, na região do Taboão da Serra. No local, o menino foi submetido a uma tomografia, onde se constatou que um tiro havia atingido sua cabeça.

Como não havia UTI infantil, Arthur precisava ser transferido para outra unidade de saúde. Porém, nenhum hospital procurado, segundo a família, tinha vaga.

"Ligamos em vários, gente. Nenhum tinha vaga. UTI Infantil. Será que nenhum tinha vaga?", relatou a tia da criança, Rosana Aparecida, à TV Globo.

Rosana contou ter contatado ao menos 12 hospitais da rede privada e pública.

Por volta das 5h do dia primeiro, a família finalmente conseguiu uma vaga no Hospital Geral de Pirajussara, do estado. A unidade havia negado atendimento, mas depois de os familiares explicarem a situação, o menino conseguiu ser internado.

No entanto, Arthur só conseguiu dar entrada no local por volta das 7h, mais de cinco horas após o ocorrido.

"Precisava de uma ambulância com médico. A gente pediu pelo amor de Deus para o médico daqui (Family) acompanhar ele na ambulância. A gente ia pagar a ambulância, mas não tinha médico", contou Rosana.

Mesmo após todos os esforços, Arthur teve morte cerebral na noite de segunda-feira.

INVESTIGAÇÃO/ No início da noite, por meio de interceptações telefônicas a polícia prendeu um homem suspeito de atirar em Arthur.

Aos policiais, o acusado disse possuir uma arma e passou pela local atirando para o alto como forma de comemorar a virada do ano. Ele teria feito de três a quatro disparos.

Segundo o portal G1, o homem tem passagem por roubo e foi levado ao 89º DP (Portal Morumbi), responsável pela investigação do caso. Até o fechamento desta edição não havia mais detalhes sobre o suspeito.

Na tarde de terça, o delegado Antônio Sucupira Neto disse que Arthur havia sido atingido por uma bala de revólver calibre 38 na região superior do crânio. Ele vai investigar se houve negligência por parte do Hospital Family ou do Samu.

O Ministério Público também vai apurar o caso.

RESPOSTA DAS PREFEITURAS

Não informou gravidade

Por telefone, a Secretaria Municipal de Saúde se limitou a dizer que o Samu da capital não recebeu chamados. Já a Prefeitura de Taboão da Serra afirmou que o Hospital Family ligou para o Samu à 1h26 pedindo para transferir uma criança, mas não informou sobre a gravidade do seu estado de saúde. A médica reguladora do Samu, então, não enviou uma ambulância com UTI. Por volta das 5h38, uma médica do Hospital Family acompanhou a transferência de Arthur para o Hospital de Pirajussara, informou a prefeitura. "Segundo informações da equipe, este acidente não ocorreu em Taboão da Serra. Não temos registro de chamado anterior", disse a administração municipal.

RESPOSTA DO HOSPITAL FAMILY

Demora para achar vaga

Em nota, o Hospital Family disse que no início a família informou que a queda de Arthur havia ocorrido devido a uma convulsão. “Ressaltamos que o tratamento para traumatismo por queda ou por bala perdida inicialmente é o mesmo.” Segundo a unidade, sem UTI infantil, foi iniciado o processo de transferência que começou à 1h11 e acabou apenas às 4h53, devido a demora para conseguir vaga no SUS. “Ao todo, procuramos por 12 hospitais.”

RESPOSTA DA SECRETARIA

Hospital atendeu criança

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde disse que o Hospital Geral de Pirajussara prestou atendimento a Arthur assim que ele deu entrada na unidade. No local, segundo a pasta, o menino passou por avaliação e procedimento cirúrgico. “Depois disso, foi internado na UTI pediátrica e faleceu devido à gravidade clínica”, informou a secretaria. A nota afirma ainda que o hospital não nega atendimento a casos de urgência. “Seu pronto-socorro é referenciado”, disse. A pasta informou ainda que, em casos de transferência, o transporte é de responsabilidade do serviço origem. Sobre a busca da família em 12 hospitais para Arthur, a secretaria disse que não houve solicitação prévia de transferência à regulação estadual, no sistema da Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde.


Compartilhe: