Diário de S. Paulo

10/01/2018 - 18:56

Copo americano

Ela iniciou a conversa com a intenção de falar pouco, com palavras despercebidas. A monotonia do café quente e copo americano, talher pequeno para mexer o açúcar. Seus olhos piscavam estranhamente enquanto seus lábios movimentavam. Cadeiras baixas de madeira e, antes de se sentar, tateou com a mão direita. Unhas grandes pintadas de preto e era assim que mentia, Lucas sabia. O café em frente ao semáforo da estreita rua Dom José de Barros, toldo verde escuro e piso brilhante. O copo acomodado perfeitamente em sua mão.

Ao lado do caixa que usava registradora industrial, um homem alto de cabelos lisos penteados para a esquerda pegou o jornal do dia. Na manchete, o presidente da Rússia brilhava os dentes. Lucas mirou por mais de três minutos o quadro da direita, preso por um prego luminoso. Nele, um efeito fotográfico que distorceu as curvas de um prédio. Luzes marrons e amarelas respingadas nas marquises de concreto; semelhantes a um balde de tinta lançado a distância. Lucas reparou que as unhas eram da mesma cor de sua camiseta.

Aos passos curtos e assertivos ela caminhou em direção ao toalete e, na porta, letras caligráficas “ladies”. No copo que descansava sobre a mesa, ao lado da pequena colher de prata, restou metade do café. A porta fechou e o ruído de seus saltos descansou no momento em que o garçom grisalho ofereceu empatia. Lucas sugeriu duas pedras de gelo em um copo largo da mais barata aguardente. As rugas no rosto escureciam a pele do garçom que sorriu com o pedido. Ela, seus joelhos suavemente inclinados em medida do vestido verde, claro e curto. Ao sentar-se, fez o mesmo gesto com a ponta das unhas pretas na cadeira.

O batom quase sem destaque nos lábios e voz delirantemente calma, roucamente lúcida. Indagou o drinque e Lucas não respondeu, apenas concordou os baixos custos. O homem que segurava o jornal media aproximadamente um metro e noventa; Lucas percebeu uma abrupta velhice. A tarde escureceu com os pequenos lustres do café, o copo sem atenção e a primeira luz acendida. O jornal amassado nas mãos, os cabelos lisos e soltos até os olhos. Lucas tentou lembrar o nome do presidente russo e do noticiário da televisão de sua casa sobre o mercado aduaneiro chinês. A briga pontual dos vizinhos; deveria descongelar a geladeira na segunda.

As horas foram informadas pelo grisalho que trouxe a conta sem solicitação. O alto riu rápido, Lucas deixou algumas notas e estava sozinho, sem unhas e copo na metade com café. Apenas só, com o jornal aberto no caderno de política que cobria a pequena e redonda mesa de madeira inteira. Saiu de lá com os olhos voltados para o chão, dobrou a rua Vinte e Quatro de Maio e viu as luzes vermelhas das pontas dos prédios apontadas para o céu. Eram pedidos de socorro, decididos em pauta de reunião dos habitantes esquecidos em cafés e vagões de transporte coletivo.

Entrou no elevador escuro e, a cada andar, ouviu ruídos em pequenas pausas. No corredor, o quadro de moldura marrom imitava as pipas de Portinari. O céu, as pipas e as cores das crianças correndo. Lucas adorava aquele quadro, parou e mirou a pipa vermelha ao longe. Travou a porta e olhou a fotografia dela estacionada no criado mudo ao lado da cama. Ligou a televisão e caminhou até o mural da parede da sala. Nele, fotos dos dois em sorriso, beijos e paisagens ao fundo. O calendário preso. Circulou o dia daquela sexta-feira. Somou sessenta e nove dias, a quantidade de conversas naquela mesa do café. O mesmo tempo que frequentava sozinho os toldos verdes e escuros, sem unhas pintadas. Os dias que repassava a conversa vidrado no mural. Sexta-feira, foi a última vez que ouviu poucas palavras saírem dos lábios rosados de batom.


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SOBRE Alessandro Araujo

Alessandro Araujo é redator e escritor. São dois livros já lançados e outras publicações em jornais, revistas e sites, como a Caros Amigos, Jornal Rascunho, revista CULT e diversos outros veículos de comunicação.