Diário de S. Paulo

17/12/2017 - 16:16

Passageiros da CPTM sofrem com falta de acessibilidade

Mães de cadeirantes dizem contar com a boa vontade de agentes para carregar seus filhos nas plataformas. Construções ficarão prontas até o dia 31, promete CPTM

Por: Ana Paula Bimbati
[email protected]

Foto: Nelson Coelho/Diário SP

Toda terça-feira as donas de casa Letícia Lima, de 31 anos, e Ângela Gomes, 35, enfrentam um dilema: como vão transportar seus filhos dentro da Estação Estudantes da Linha 11-Coral da CPTM. O local não oferece acessibilidade para João Francisco, 3, e Lorenzo, 4, que utilizam cadeiras de rodas.

"Levo o João para fazer fisioterapia em uma universidade perto da estação e sempre foi um sufoco, porque não tem rampa para passar de uma plataforma a outra. Antes, a gente contava com ajuda dos seguranças, mas, agora, até isso está difícil", relatou Letícia. Seu filho tem microcefalia e todos os dias faz algum tipo de tratamento.

A Estação Estudantes não é a única a não oferecer mobilidade. Em Brás Cubas, no mesmo ramal, os usuários reclamam da falta de rampas, já que apenas um escadão serve de acesso aos passageiros (leia na pág. 3).

A CPTM, depois de anos de reclamações, iniciou obras nas duas estações, que devem ser concluídas até o dia 31 deste mês. Segundo a companhia, as reformas não haviam sido feitas ainda, pois a verba viria do governo federal.

O problema relatado pelas mães de crianças com alguma deficiência é a demora para entregar ao menos a rampa de acesso e a falta de ajuda dos funcionários da estação.

"Eles acham que a mãe tem de se virar com a criança, sabe? Demoraram para fazer uma rampa e, agora que fizeram, não podemos usar", desabafou Ângela. Seu filho, Lorenzo, tem paralisia cerebral.

Segundo a dona de casa, sem um acesso facilitado, ela precisa esperar um trem parar na plataforma para usá-lo como atalho e, só assim, chegar à outra plataforma de embarque. Outra opção é levantar a cadeira de rodas sozinha.

Em alguns casos, os agentes de segurança auxiliam e transportam as crianças de um lado a outro da estação. Mas nem sempre isso ocorre.

Além de enfrentar problemas de locomoção dentro da parada, as mães sofrem para embarcar na composição, já que a distância entre o trem e a plataforma é alta. Com a cadeira de rodas pesada, o auxílio dos funcionários é essencial, segundo elas.

ATENDIMENTO/ Tanto a CPTM quanto o Metrô oferecem um serviço de atendimento para pessoas com alguma deficiência. O usuário, que precisa de ajuda para se locomover pode acionar na SSO (Sala de Supervisão Operacional) o auxílio de algum funcionário na hora que for desembarcar.

Letícia relatou que já teve problemas com o serviço e ficou sem atendimento. "Já teve dias de avisar na SSO de Suzano que iria descer em Estudantes com cadeirante, mas quando cheguei na estação os guardas falaram que não tinham recebido nenhuma informação", alegou.

Obras ficarão prontas este ano, diz CPTM

A CPTM informou que as obras das duas estações da Linha 11-Coral ficarão prontas até o dia 31 deste mês. Segundo a companhia, a rampa da estação Estudantes não está concluída e "por motivo de segurança não é possível liberá-la para uso".

Em nota, a empresa disse que as obras só tiveram início em julho deste ano, pois aguardava liberação de verba por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Mobilidade, desde 2014. "No entanto, no fim de dezembro, o Ministério das Cidades publicou portaria excluindo do PAC o projeto de modernização das estações da CPTM." Sem o repasse da União, a companhia decidiu usar recursos estaduais para fazer as intervenções.

O investimento da obra em Brás Cubas é de R$ 1,1 milhão. A estação receberá rampas, corrimão, mapas e rotas táteis, vaga de embarque e desembarque preferencial, rebaixamentos de calçada e passarela assistida para travessia de usuário com mobilidade reduzida entre as plataformas. Terá também alteamento do piso para reduzir a altura entre o trem e a plataforma.

Já na Estudantes, o investimento é de R$ 680 mil. O espaço receberá rampas, rebaixamento de calçadas, mapas e piso tátil, além da construção de banheiro adaptado.

A CPTM afirmou treinar todos os funcionários para transportar pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Sobre a reclamação da SSO (Sala de Supervisão Operacional), que não informou a chegada das mães na estação, a companhia disse que irá "reorientar a equipe sobre os procedimentos de atendimento".

Em Brás Cubas, escadão é principal reclamação

Ainda na Linha 11-Coral, os usuários da Estação Brás Cubas sofrem há anos com a ausência de acessibilidade. A principal reclamação de quem utiliza o local para embarcar em um trem é um escadão, com mais de 30 degraus.

Para acessar a plataforma sentido Estudantes ou desembarcar na Avenida Anchieta, os passageiros precisam enfrentar uma escada velha. "Passo por aqui uma vez por semana porque levo meu filho no médico em São Paulo e sempre é bem difícil", relatou o vigilante Paulo Nascimento, de 35 anos.

Sem escada rolante, elevador e até mesmo uma rampa, o jeito é subir devagar.

A inspetora de qualidade Michele Pina, 30, não sofria tanto, até ter de subir e descer com uma mala pesada. "Ainda precisa melhorar muito aqui. Acho que, como não estamos na capital, ficamos meio esquecidos", pontuou.

Além da ausência de equipamentos para facilitar a passagem, a estação tem o mesmo problema de Estudantes: a distância entre o trem e a plataforma é alta.

"É muito perigoso porque se você não presta atenção, ou quando o trem está muito cheio, pode acontecer um acidente sério. Eu já cai umas três vezes pelo menos", relatou a dona de casa Sara Antônia da Costa, 58.

Para encarar as escadas, a dona de casa subia alguns degraus, parava e continuava. "Precisa ver se vão entregar essa obra, mesmo", disse.

Levantar cadeira de rodas pode causar acidente

Uma das grandes preocupações das mães Ângela e Letícia ao não conseguirem deslocar os filhos na Estação Estudantes é a opção dada a elas: levantar a cadeira de rodas.

"Os médicos falam que não se pode fazer isso, então, mesmo com a ajuda dos guardas da estação, nossos filhos correm perigo", relatou Ângela.

A declaração da mãe foi confirmada pelo médico fisiatra Roberto Rached. Segundo ele, o ato de levantar a cadeira de rodas com o paciente nela pode causar uma série de acidentes, tanto para quem transporta quanto para quem está sendo transportado.

"O ideal sempre é oferecer acessibilidade para quem precisa, principalmente em locais como esse, que fazem parte do transporte público", avaliou.

Rached explicou ser preciso, em primeiro lugar, ocorrer um treinamento para transportar pessoas com cadeira de rodas e que o manuseio não é tão simples como se parece.

"Essa mãe que acaba precisando levantar a cadeira vai sofrer futuramente, porque, em alguns casos, não irá se acidentar, mas pode ser acometida de uma lesão", disse.


Compartilhe: