Diário de S. Paulo

24/11/2017 - 22:39

Perto dos postes

Ela dissimulava à sombra das árvores e o dia seco perto daquela rua. A senhora de cabelos longos e brancos carregava um carrinho de alumínio cheio. O semáforo fechou e o céu simples de cor cinza. O corcel azul parou e o menino de cabelos crespos com o rosto colado na janela. Ela abaixou a cabeça, caminhou e as pequenas rodas do carrinho de feira zuniam. As esquinas cheias de almoço e três caminhoneiros bebiam cerveja em copos cheios. O prédio menor parecia só ao lado de duas casas com quintal.

O vestido de brilho azul e os saltos altos nos passos da calçada. Seios quase à mostra e o rosto de maquiagem desprendida. O terno recém comprado de um jovem magro de pescoço fino. Não cabia nas costas do menino o caixote de engraxate com os dizeres três notas e um sorriso. A pequena Luiza na guia da rua e o nome berrado pela mãe. A pedinte de olhos azuis e véu no pescoço. Pernas feridas e cobertas por faixas velhas e amareladas. Antigas marcas de sangue.

O dia seco perto daquela rua. Os bares exploram a dramaticidade na noite. O caixote no chão feito flanela em três notas. Sorriso automático no fim.

– Que querem vocês? O grito saiu da cabine do telefone público. Vozes nas palavras dos homens nos bancos do bosque central. O relógio público aceso e os graus do frio da noite. As posições políticas, camisa de futebol dos três jovens soltos e os saltos na rua da prostituta. Vestido curto e preto. Os postes acesos iluminando as fachadas dos comércios fechados e um carro buzinou.

– Que querem vocês? Ela dissimulava à sombra.


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SOBRE Alessandro Araujo

Alessandro Araujo é redator e escritor. São dois livros já lançados e outras publicações em jornais, revistas e sites, como a Caros Amigos, Jornal Rascunho, revista CULT e diversos outros veículos de comunicação.