Diário de S. Paulo

10/09/2017 - 20:42

Após enganar Janot, dono da JBS é preso

Joesley Batista e Ricardo Saud entregaram-se na sede da Polícia Federal em São Paulo, neste domingo (10)

Por: Diário SP
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Foto: /Rovena Rosa/Agência Brasil

Dias após a divulgação dos polêmicos áudios da JBS terem sido enviados à Procuradoria Geral da República, aparentemente sem querer, numa trabalhada histórica, os delatores da J&F, Joesley Batista (proprietário) e Ricardo Saud (diretor do grupo), entregaram-se na tarde deste domingo (10) na sede da Polícia Federal, na Lapa, Zona Oeste.

Os delatores chegaram em carros separados e não falaram com o batalhão de jornalistas que os aguardavam. A expectativa é que eles sejam levados no avião da PF a Brasília para fazer exames de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal) local e, depois, sejam transferidos para um presídio.

Durante a tarde, pessoas próximas aos agora encarcerados levaram objetos pessoais a eles, como roupas de cama e travesseiros. Joesley deixou o apartamento de luxo da família na Rua Haddock Lobo, nos Jardins, Zona Oeste da capital, por volta das 13h45. Segundo informações do jornal "O Globo", ele se despediu de familiares e, em seguida, sentou no banco de trás de um Toyota Hylux, acompanhado dos advogados Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay e Pierpaolo Bottini.

As prisões foram determinadas pelo relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Conforme a PGR, eles teriam descumprido o acordo de delação premiada ao esconder informações do Ministério Público.

Nas últimas gravações entregues à PGR, um dos arquivos do áudio mostra Joesley e Saud numa conversa informal que sugere cooptação do ex-procurador Marcello Miller, que trabalhava ao lado de Janot. Ele teria fornecido informações privilegiadas aos delatores.

O PGR deve pedir a rescisão do acordo de colaboração que dava imunidade aos executivos. Numa tentativa de evitar a prisão temporária, a defesa deles tentou entregar os passaportes. Não funcionou.

Fachin, na decisão que autorizou as prisões, disse haver "múltiplos os indícios, por eles mesmos confessados, de que integram organização voltada à prática sistemática de delitos contra a administração pública e lavagem de dinheiro".

Miller rompe o silêncio

O ex-procurador Marcelo Miller disse, em nota ontem, ser "fantasioso e ofensivo" a parte que o menciona seu nome no áudio dos delatores. Ele negou ter feito papel de agente duplo. "Não tinha contato algum com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, nem atuação na Operação Lava-Jato desde, pelo menos, outubro de 2016." Miller disse também que "nunca atuou em investigações ou processos relativos ao Grupo J&F". O STF negou o pedido de prisão do ex-procurador.

J&F nega ter traído
a PGR nas delações

O grupo J&F, controlador da JBS, negou que os seus executivos tenham mentido nas delações tampouco omitido informações no acordo. O prazo da detenção de Saud e Joesley é de 5 dias, renováveis por igual período. Mas o que eles mais temem é que a prisão seja convertida em preventiva, ou seja, sem data.

Janot é visto em bar ao lado de advogado de Joesley

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o advogado de Joesley Batista, preso ontem, se encontraram em um bar de Brasília no sábado. A cena foi fotografada e divulgada pelo site "Antagonista".

O encontro, justificado por ambos como "casual", aconteceu 24 horas após o ministro Edson Fachin, do STF, ter mandado a PF prender Joesley e o diretor do grupo J&F, Ricardo Saud.

Em nota à imprensa, Janot afirmou ser cliente do comércio. "Acerca da nota publicada pelo site O Antagonista, a Procuradoria-Geral da República esclarece que o procurador-geral da República frequenta o local rotineiramente. Não foi tratado qualquer assunto de natureza profissional, apenas amenidades que a boa educação e cordialidade prezam entre duas pessoas que se conhecem por atuarem na área jurídica", disse.

Já o advogado Pierpaolo Bottini enfatizou que o encontro ocorreu em um local público, porém, não informou o endereço. Conforme o defensor, a reunião não foi "marcada" tampouco "agendada". "Foi um encontro casual, não conversamos sobre temas jurídicos. Então não vou mais fazer declarações", afirmou ao "O GLOBO".

Nos bastidores, causou estranheza o fato de a ordem de prisão dos delatores demorar tanto tempo para ser cumprida. A PF disse que, no sábado, a instituição discutia a operação de prisão quando os advogados dos executivos informaram que eles se entregariam. Suspeita-se que Janot e Pierpaolo conversaram sobre as condições dos delatores se entregarem.


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