Diário de S. Paulo

07/09/2017 - 16:54

Panelaço a favor dos direitos sociais

Diferentemente do tradicional e pomposo desfile no Sambódromo do Anhembi, marcha do Grito dos Excluídos bate panelas para reivindicar direitos sociais e protestar contra as reformas do governo federal

Por: Jeniffer Mendonça 
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Foto: Nelson Coelho/Diario SP

A bateria foi à base de inox e alumínio. Os instrumentos improvisados tomavam uma ala da comissão de frente, liderada por mulheres, que seguravam uma faixa extensa para o desfile. O hino, não era o da Independência, mas "Por Direitos e Democracia, a luta é todo o dia", lema da 23ª edição do Grito dos Excluídos e das Excluídas, que aconteceu nesta quinta-feira (7) em São Paulo. O ato, que acontece desde 1995, tem por objetivo mostrar a falta de garantia de direitos às pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Maria Natalia Santos Moura, de 76 anos, fazia parte do grupo da frente. Empenhava o guarda-chuva que usava para batucar uma panela. Quando pode, participa das manifestações já que, apesar de aposentada, trabalha como faxineira na sede do Corpo de Bombeiros, na Sé, região central - ao menos até o final do mês. A profissão a acompanha desde os 16 anos, quando veio da Bahia para a capital paulista, mas também já trabalhou com reciclagem e "olhando carro".

"Eu tenho medo de perder a minha casa. Antes, eu morava no bairro do Aricanduva (Zona Leste) num quarto pequeno, que encheu de cupim. Uma moça da [Ocupação] Mauá me chamou, e eu fui. Estou lá há dez anos, a ocupação tem 11, mas eles [a Prefeitura] querem despejar a gente", declarou, emocionada. Em outubro, está prevista uma reintegração de posse no prédio localizado no bairro da Luz, na região central.

A reivindicação por moradia foi a mais presente pela quantidade de bandeiras de movimentos e frentes que lutam pela causa. A operadora de telemarketing Jacqueline Simões Araújo, 32, alega que "agora está mais difícil entrar no programa Minha Casa, Minha Vida", do governo federal. Ela paga R$ 800 de aluguel onde mora no Sacomã, na Zona Sul, mas ganha uma média de R$ 1,1 mil.

Num braço, carregava uma caixa de isopor para vender doces caseiros e complementar a renda; o outro segurava firme a mão do filho Jonathan, de 4, para não perdê-lo na multidão.

"Quando tem manifestação em feriado é mais fácil para eu vir e trazer ele. É importante ele ter o entendimento da luta para mostrar que a gente tem direito também. Quando a gente vai para a rua, a gente chama a atenção e mostra que tem voz ativa", afirmou. 

O ato aconteceu de forma pacífica em pelo menos 14 cidades. Cerca de 15 mil pessoas em São Paulo, segundo a organização, saíram em marcha às 11h da Praça Oswaldo Cruz, seguiram pelas avenidas Paulista e Brigadeiro Luís Antônio, até o Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera, aos gritos de "Fora, Temer" e "Diretas Já". A Polícia Militar não fez contagem.

Protesto abordou a crise e os cortes no orçamento

Neste ano, incluir as panelas representa uma denúncia direta às medidas de redução orçamentária, como a Emenda Constitucional 95, aprovada no ano passado, que limita os gastos públicos por 20 anos, e às manifestações pró-impeachment. "Eles batiam panela de barriga cheia, e a gente bate pelas pessoas que voltaram para o mapa da fome", afirmou Raimundo Bonfim, coordenador da Central de Movimentos Populares, responsável pela organização do ato.

Dentre as demandas, também são contrários ao aumento do teto de renda familiar para três tipos de faixa do Programa Minha Casa, Minha Vida, anunciado em fevereiro.

 Durante a concentração na Praça Oswaldo Cruz, também circulavam pranchetas para coletar assinaturas a fim de requisitar um plebiscito na Câmara Municipal contra o pacote de privatizações do prefeito João Doria (PSDB).


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