Diário de S. Paulo

04/09/2017 - 18:12

Ação revela que rádios das polícias não se comunicam

Operação que resultou na morte de 10 assaltantes no Morumbi revela que rádios das polícias Civil e Militar não se comunicam

Por: Fernando Granato
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Foto: DEIC

O confronto que resultou na morte de 10 assaltantes no Morumbi, Zona Oeste, na noite de domingo (3), teve como protagonista uma força policial que não é a mais apropriada para ações ostensivas e isso aconteceu por um simples motivo: os rádios das polícias Civil e Militar não se comunicam.

O delegado Ítalo Zaccaro Neto, que comandou a operação, contou que ele e mais três policiais civis estavam na área do Morumbi procurando por dois veículos que seriam usados por ladrões de residências. Quando avistaram os carros, eles buscaram apoio do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos), e não da Polícia Militar para abordar os criminosos.

"Não foi solicitado apoio da Policia Militar porque nós tínhamos 10, 15 minutos, e meu rádio não fala com o rádio da PM", afirmou o delegado, que é o titular da 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra o Patrimônio, do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais).

Outro delegado do Deic, Antonio José Pereira, responsável pela Divisão de Patrimônio, disse que a intenção era abordar os assaltantes antes que eles entrassem na residência para efetuar o assalto mas que, com a demorada da chegada da equipe de apoio, do Garra, isso não foi possível.

"Foi chamado apoio dos policiais operacionais do Garra e demorou um pouco pra chegar", afirmou. "Foi então que deu tempo desses assaltantes adentrarem na residência . A intenção seria a prisão mesmo antes do cometimento do crime, mas até o pessoal do Garra chegar, eles entraram na residência e quando perceberam a presença da polícia, houve resistência."

O Ouvidor das Polícias de São Paulo, Júlio César Fernandes Neves, disse estranhar que a ação de domingo tenha acontecido por uma força policial de inteligência, e não ostensiva. "Fiquei surpreso por ser a Polícia Civil, investigativa, envolvida num caso com tantas mortes", disse.

Entre os assaltantes mortos estava Mizael Pereira Bastos, o Sassá, que seria responsável por mais de 20 assaltos a residências de luxo.

'Quem está de fuzil não está querendo conversar'

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), defendeu ontem a ação da Polícia Civil que resultou na morte de 10 assaltantes, no Morumbi, Zona Oeste, na noite de domingo.

"Quem está de fuzil não está querendo conversar", disse. "Eram criminosos fortemente armados, com munição inclusive que nem pode ser utilizada e coletes balísticos. Graças a Deus não tivemos nenhuma vítima atingida e nem policiais. Esse é um trabalho que tem que ser feito, de inteligência."

Também o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo elogiou o trabalho de inteligência realizado pelos policiais civis do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) e do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos), envolvidos na ação. "Com recursos escassos, os bravos policiais, pela sua competência e dedicação, seguiram os passos da quadrilha por sete meses até flagrarem-na na noite de domingo", afirmou. "É de policiais civis assim que a nossa instituição está cheia, por isso, o trabalho, apesar do pouco investimento do governo do estado, está entre os melhores resultados de polícia judiciária da América Latina, sempre em favor da sociedade."

Já o advogado Ariel de Castro Alves, coordenador estadual do Movimento Nacional de Direitos Humanos, disse que "é bastante estranho muitas mortes numa suposta ação investigativa e de inteligência policial".

Moradores vivem rotina de susto e medo no bairro

Foto: Divulgação

Um dia depois do confronto entre a Polícia Civil e criminosos, que resultou na morte de 10 assaltantes, o cenário era de guerra nas ruas do Morumbi, bairro de elite da Zona Oeste paulistana.

Na Rua Puréus, onde fica a residência que foi assaltada pelo grupo, marcas de tiro de grosso calibre estão em paredes e portões. No chão, restos de roupas com manchas de sangue e pedaços dos veículos dos criminosos que acabaram se colidindo no momento da tentativa de fuga.

Na Rua Santo Eufredo, onde um dos bandidos que fugia a pé foi atingido e tombou, uma moradora que não quis se identificar contou que o medo já toma conta daquela vizinhança há tempos.

"Eu mesma já fui assaltada há quatro anos e, depois disso, vivo trancada dentro de casa com medo de sair", disse. "Nem coisas simples, como lavar as calçadas, a gente faz por aqui com receio de que os bandidos cheguem e entrem nas nossas casas."

 Outro morador, que costuma fazer caminhadas pelo bairro e ontem passou no local do confronto, disse que muitos que vivem ali querem vender suas casas, mas não conseguem. "Estou com meu imóvel a venda há cinco anos e não consigo comprador", afirmou. "Ninguém quer mais morar aqui."

Enquanto caminhava, esse vizinho encontrou cápsulas deflagradas de fuzil, usadas no confronto de domingo. "Antigamente os ladrões usavam revólver calibre 38, agora é fuzil de guerra", disse.

Segundo informações da Polícia Civil, os criminosos que morreram no confronto atuavam em diversas frentes, como roubo a caixas eletrônicos, carros-fortes e residências, mais recentemente. O grupo era monitorado há um ano e meio e há cerca de sete meses vinha migrando para o roubo a casas de alto padrão.

O líder do grupo era Mizael Pereira Bastos, o Sassá, considerado especialista em roubo a residência. Outro criminoso morto, Felipe Macedo de Azevedo, o Miojo, tinha experiência com roubo a caixas eletrônicos e carros-fortes. Em sua casa, na tarde de ontem, a polícia encontrou bananas de dinamite usadas nesses tipos de crimes.

Junto com os bandidos, no domingo, a polícia encontrou quatro fuzis AR 15, duas pistolas e três revólveres.


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