Diário de S. Paulo

06/09/2017 - 17:27

'Polícia Federal - A Lei É Para Todos' se mostra parcial

Filme é baseado no livro de mesmo nome, dos autores Carlos Graieb e Ana Maria Santos

Por: Giovanni Oliveira
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Foto: Divulgação

Nem toda história que a gente assiste no cinema é inventada. A prática de levar um fato real para as telonas é bem comum, principalmente quando este fato entra para a história de um país ou até do mundo. Além disso, este é um meio de eternizar aquele momento para as futuras gerações. Muitas vezes, o resultado dessas adaptações é positivo, como o drama "Spotlight - Segredos Revelados", que contou a história de abusos sexuais de menores por padres americanos. No cinema brasileiro, temos alguns exemplos de filmes sobre momentos históricos, como o recente "Real - O Plano Por Trás da História". Neste fim de semana, mais uma produção do gênero entra em cartaz: "Polícia Federal - A Lei É Para Todos", que conta a história dos bastidores da Operação Lava Jato. Mas será que tudo o que aconteceu é exibido na tela?

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Dirigido por Marcelo Antunez, que comandou a sequência "Até Que a Sorte nos Separe 3 - A Falência Final", o longa baseado na maior operação anti-corrupção do nosso país pode ser avaliado sob duas óticas distintas: técnica e factual. Pela primeira, o filme se mostra um bom entretenimento. Munido de ótimos cenários e locações, boas cenas de perseguição e um ritmo interessante que mantém o espectador alerta o tempo todo, o longa tem um estilo nunca antes visto no cinema nacional, mas muito utilizado em filmes norte-americanos. Os papéis de heróis e vilões são bem claros. Porém, pelos personagens serem inspirados num amontoado de pessoas reais, os protagonistas acabam por transparecer um pouco de superficialidade. As atuações são plásticas e poucas vezes soam verdadeiras.

Do ponto de vista factual, o filme enfrenta um grande desafio: ajustar em pouco menos de duas horas uma trama tão complexa. São muitos nomes, conexões, reviravoltas... E muitos pontos desta história são de conhecimento público, logo, as expectativas são grandes por parte da audiência. Assim, tendo em vista tais limitações, o filme opta por uma narrativa simplificada, sob o ponto de vista da Polícia Federal. Tal escolha acaba entregando um filme parcial e maniqueísta, que, de maneira intencional ou não, omite pontos importantes da trama real. E se tratando de filme baseado em fatos reais e políticos, ser imparcial é requisito mínimo para entregar um bom trabalho. Enfim, o longa tem seus erros e acertos como qualquer produção. Resta esperar uma melhora na continuação (anunciada durante uma cena pós-crédito).

'Uma deturpação da função policial', diz dirigente sindical

Em entrevista ao DIÁRIO, Alexandre Sally, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Civis do Departamento de Polícia Federal no Estado de São Paulo (SINDPOLF/ SP), deu a sua opinião sobre o que achou do filme. "Enquanto entretenimento é interessante porque dá uma visão positiva para a sociedade sobre a Polícia Federal. É um marketing bom, positivo, mas está longe de ser real. Não diria que é excepcional. É morno, mas é vibrante. Tem uma boa trilha sonora, as imagens das viaturas da PF, do serviço em si, é muito legal, dá orgulho de ser Policial Federal", avalia. "Porém, do ponto de vista interna corporis, é uma deturpação deslavada da função policial, porque os delegados, no filme, usurparam funções dos agentes e de escrivães", completa. Segundo Alexandre, que assistiu o filme em uma pré-estreia especial, 90% das atividades feitas pelos delegados no filme não são de sua responsabilidade na vida real. Ele ainda comenta sobre o que ficou faltando no longa. "Faltou a expressão da realidade do sistema de investigação, a realidade do dia a dia policial! Em nenhum momento se fala no Inquérito Policial e não se verifica ali a execução do inquérito, que é o instrumento da única função do Delegado", revela. "É como o próprio diretor falou na sala em que eu estava na pré-estreia: o filme é um entretenimento. E, como tal, por não ser um documentário, possui muita perfumaria e ficção. E o que não falta no filme é ficção. A investigação policial foi muito romantizada", conclui.


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