Diário de S. Paulo

31/08/2017 - 18:01

Mooca, o bairro mais paulistano da cidade

Mooca completa 461 anos de uma história que se confunde com a trajetória da capital

Por: Fernando Granato
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Foto: Nelson Coelho/Diario SP

O bairro que é a mais perfeita tradução de São Paulo completou 461 anos com um mês de festa que terminou nesta quinta-feira (31). Teve jogo de futebol comemorativo, bolo com três metros de comprimento, queima de fogos e projeções de imagens históricas na fachada de um shopping center.

A história do bairro remete ao ano de 1556, quando os padres jesuítas chegaram e ergueram uma ponte sobre o Rio Tamanduateí. De início, o lugar recebeu o nome de Arraial de Nicolau Barreto e era uma região rural, que servia de passagem para os bandeirantes e jesuítas que seguiam ao litoral.

Mais tarde, no século 19, no auge do ciclo do café e no período da imigração, a Mooca ganhou novas feições. Recebeu um ramal da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e várias indústrias. E um sotaque italiano que permanece até hoje entre seus moradores.

"A cada pedacinho que a gente caminha no bairro tem um pouco da história da cidade", afirma a educadora Crescenza Giannocaro, de 74 anos, presidente da Associação dos Amigos da Mooca e uma das maiores entusiastas do local. "Aqui permanecem reflexos da Revolução Industrial, do ciclo das imigrações, do caldo cultural produzido pelos operários que fizeram São Paulo."

Essas características peculiares fizeram do bairro uma nação, e seus moradores estão entre os mais bairristas da cidade. A Mooca tem um brasão e um hino próprios e um time de futebol que é a paixão de todo moquense: o Juventus. "É mais que amor, é uma doença", resumiu o aposentado Vicente Romano Netto, no livro sobre a história do clube.

O campo do Juventus, na famosa Rua Javari, foi construído em 1924 para receber partidas de futebol entre os operários do Cotonifício Crespi, uma fábrica de tecidos de algodão onde trabalharam mais de seis mil imigrantes no início do século 20.

Em 1940, no lugar do antigo campo, foi erguido o Estádio Conde Rodolfo Crespi, que permanece até hoje. Foi ali que, em 1959, aconteceu aquele que é considerado o gol mais bonito de Pelé, segundo ele mesmo, num jogo entre o Santos e o Juventus. O Rei do Futebol deu quatro chapéus - o último no goleiro - e finalizou de cabeça. O Peixe venceu por 4 x 2. Uma placa lembra o feito.

Primeira greve geral começou na Mooca 

A primeira greve geral de trabalhadores no Brasil teve início na Mooca, há exatos cem anos.

Era junho de 1917 quando cerca de 400 operários da fábrica têxtil Cotonifício Crespi, em sua maioria mulheres, paralisaram suas atividades no local.

Os operários pediam, entre outras coisas, aumento de salários e redução das jornadas de trabalho, que até então não eram garantidos por lei.

Em poucas semanas, a paralisação se espalharia por diversos setores da economia, por todo o estado de São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Era a primeira greve geral no país.

No livro "A Capital da vertigem", o jornalista Roberto Pompeu de Toledo conta que o viajante francês Paul Walle registrou em seu diário que "numa fábrica da Mooca, em 1917, meninos de 12 e 13 anos trabalhavam no período noturno e queixavam-se de que eram frequentemente espancados".

O prédio do Cotonifício Crespi existe até hoje e representa um marco da industrialização na cidade de São Paulo. O imenso edifício ficou vazio, sofrendo a deterioração do tempo até 2003, quando uma rede de hipermercados o alugou. Apenas a fachada foi preservada. 

Mooca 

Data de fundação: 17 de agosto de 1556 

Localização: Zona Leste  

População: 75.724 habitantes

Área: 7,70 quilômetros quadrados 

Leitos hospitalares: 14,30 por mil habitantes (média da cidade 2,55) 

Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica): 5,10 (melhor de São Paulo) 

Estação de Metrô e CPTM: Linha 3-Vermelha (Metrô) e Linha 10-Turquesa (CPTM)


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