Diário de S. Paulo

28/08/2017 - 17:03

PF apreende 50% a mais de drogas em Cumbica

Cocaí­na segue liderando a quantidade de entorpecentes recolhidos com passageiros no Aeroporto Internacional de Guarulhos

Por: Jeniffer Mendonça
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Foto: Divulgação/PF e reprodução

Dentro de um fundo falso numa mala, por baixo da roupa, diluí­do em garrafa de bebida ou até reproduzido como grãos de feijão num saco, cerca de 1,5 tonelada de drogas foi apreendida pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na Grande São Paulo.

Nos primeiros oito meses do ano, o índice representa um aumento de 49% em relação ao mesmo perí­odo de 2016, quando uma tonelada foi confiscada no maior terminal aéreo do país.

Na última sexta-feira, uma sul-africana e um nigeriano foram presos por portarem, respectivamente, 7 quilos e 3 quilos de cocaína. Ambos viajariam para a África do Sul. O tipo da droga, inclusive, continua liderando o ranking das apreensões: 86,2% em 2017.

Como a produção na América do Sul se concentra no Peru, Colômbia e Bolívia, "o Brasil vira 'corredor' para outros países, pois o aeroporto concentra 65% do tráfego internacional", diz o delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho.

Para o agente, esse aumento é resultado da demanda, já que o Brasil é o segundo maior consumidor, perdendo apenas para os Estados Unidos, e pelo trabalho de fiscalização. "Acabamos nos tornando referência", afirma ele.

As apreensões com destino à África do Sul e Nigéria, ambos paí­ses africanos, são expressivas. O destino final é para que a droga seja vendida nos EUA e na Europa. "Quem transporta pega um voo direto. A rota mais comum para ir à África é via Etiópia".

MULAS/ Ele afirma ainda que as pessoas que geralmente realizam o trabalho de "mulas" não têm antecedentes criminais e recebem propostas que podem chegar a até

R$ 600 mil.

Funcionários do aeroporto que atuam como facilitadores entram na mesma linha, já que, para se ter um cargo no terminal aéreo não se pode ter antecedentes que firam a "segurança aeroportuária". "Histórico de roubo, furto e tráfico impedem o credenciamento", explicou.

Entre as prisões, que foram de 230 neste ano, estão em destaque brasileiros, nigerianos e sul-africanos. "Mas ultimamente temos tido uma mudança no perfil: muitos venezuelanos e bolivianos".

Desarticulação de esquemas

Essas apreensões de drogas apresentam um número significativo, mas precisamos questionar de que forma as prisões fazem diferença na desarticulação de grandes esquemas. Não temos essa informação. Quem faz o serviço de "mula" é a "franja" da rede, que está em situação de extrema vulnerabilidade social. Investigação de tráfico internacional demanda um trabalho extra, parcerias, e não é uma prioridade da PF porque está preocupada com os temas do momento, como combate à corrupção.

Crise na Venezuela é pano de fundo, diz pesquisadora

Para a pesquisadora de chavismo na Unesp (Universidade Estadual Paulista), Carolina Silva Pedroso, "a crise na Venezuela é muito mais um pano de fundo favorável ao aumento do narcotráfico do que a causa principal".

Ela aponta que após o governo colombiano selar as pazes com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o próximo passo é com o Exército de Libertação Nacional, o que implica que esses movimentos de guerrilha abram mão de atividades ilícitas para se financiarem. "Isso significa que o narcotráfico perde um apoio territorial muito importante na Colômbia", explicou Carolina.

Em setembro de 2016, a Polícia Federal assinou um acordo de cooperação com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, em inglês) para um projeto de assistência mútua antitráfico nos aeroportos signatários a partir do compartilhamento de experiências em investigação policial, segurança, migração etc.


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