Diário de S. Paulo

25/08/2017 - 17:50

Bairro em Guarulhos só é 'tranquilo' no nome

Cidade teve alta de 32% nos homicídios no primeiro semestre. Jardim Tranquilidade, cujo nome sugere uma vida longe da criminalidade, tem histórico de casos de violência

Por: Fernando Granato
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Foto: /Nelson Coelho/Diário SP

Diferentemente dos números gerais do estado de São Paulo, que tiveram uma diminuição de 3,8% nos homicídios no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, em Guarulhos, na região metropolitana, esse tipo de crime teve incremento de 32%.

Dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) indicam que nos primeiros seis meses deste ano ocorreram 86 assassinatos em Guarulhos. Já no mesmo período do ano passado, foram registrados 65 homicídios.

Neste mês os assassinatos continuaram. No último dia 4, o cabeleireiro Fábio Bernardino de Lima, de 32 anos, atendia um cliente em seu pequeno salão, quando um Fiat Uno estacionou na porta. Três homens encapuzados já desceram atirando e o executaram com vários tiros.

O caso do cabeleireiro executado chamou a atenção não só pelo grau de violência, mas pelo nome do lugar onde aconteceu, em Guarulhos: o Jardim Tranquilidade.

O DIÁRIO visitou o bairro na última semana e verificou que a tranquilidade passa longe do local. Assustados, os moradores evitam falar e se trancam em suas casas quando enxergam carros de reportagem.

Um homem, na condição do anonimato, disse que a maioria das mortes está associada ao tráfico de drogas. "Ninguém vai querer falar porque os traficantes moram por aqui e vêm atrás de quem abre a boca", disse.

Motivos não faltam para a chamada lei do silêncio. Os casos de violência se multiplicam pela região. Como a chacina ocorrida em janeiro, a poucos metros do salão, quando quatro pessoas foram mortas e uma ficou ferida num bar, em uma rua que dá acesso à Favela São Rafael.

O crime do primeiro mês do ano ocorreu na mesma região onde um policial havia sido morto, um mês antes, num assalto a uma loja de autopeças.

Além dos homicídios, os roubos também se multiplicam na região. Como o ocorrido em março deste ano, num restaurante da Avenida Emílio Ribas, a mais movimentada do bairro. "A gente não consegue mais trabalhar sossegada", disse Pâmela Souza, funcionária do estabelecimento.

Mortes em brigas de casal aumentam 108%

Neste ano, houve aumento de 62% nos homicídios praticados dentro de residências na região metropolitana, incluindo Guarulhos. Além disso, as mortes registradas devido a brigas de casais tiveram elevação de 108% nesta área do estado.

Esses dados, divulgados pela SSP (Secretaria de Segurança Pública), da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) já vinham sendo mapeados pela prefeitura de Guarulhos desde 2016.

De acordo com o mapeamento, de 2015 para 2016, as ocorrências de homicídio contra as mulheres tiveram um crescimento de 25% naquela cidade. Já os casos de estupro tiveram alta de 12% no mesmo período.

O mapeamento é feito pela Subsecretaria de Políticas para as Mulheres, da Prefeitura de Guarulhos, junto a órgãos públicos como polícia e hospitais, com o objetivo de desenvolver ações pró-ativas na prevenção de violência contra as mulheres na cidade.

"Com esse mapeamento sabemos onde priorizar nossas ações", disse a subsecretária Vera Souza. "Já verificamos, por exemplo, que o bairro dos Pimentas concentra a maioria dos casos."

Atualmente, a subsecretaria desenvolve atividades com o objetivo de esclarecer a população mais vulnerável sobre este tipo de violência.

De janeiro a julho deste ano, de acordo com a subsecretaria, o crime de ameaça foi o mais praticado contra as mulheres, em Guarulhos. Foram 1,6 mil casos. Outros 1,3 mil registros foram de lesão corporal.

A Prefeitura de Guarulhos dispõe de sete casas de acolhimento para mulheres vítimas de violência. As informações estão no site www.guarulhos.sp.gov.br 

Desenvolvimento social não acompanhou crescimento da cidade

Guarulhos é a segunda cidade mais populosa do estado de São Paulo, com 1,3 milhão de habitantes. O crescimento populacional, impulsionado sobretudo pela inauguração do aeroporto internacional, em 1985, na região de Cumbica, não foi acompanhado de desenvolvimento social.

De acordo com o último IPRS (Índice Paulista de Responsabilidade Social), elaborado pela Assembleia Legislativa em parceria com a Fundação Seade, a cidade apresentou queda nos níveis de longevidade e de escolaridade no último levantamento.

Segundo o IPRS, a taxa de mortalidade infantil de Guarulhos aumentou entre 2010 e 2012 (último ano analisado), passando de 12,1 para 12,7 (por mil nascidos vivos).

Já na escolaridade, a proporção dos alunos do 9º ano do ensino fundamental da rede pública que atingiram o nível adequado nas provas de português e matemática diminuiu de 13,9% para 13,1%.

Com relação ao analfabetismo, a taxa de Guarulhos é ligeiramente inferior à geral do território paulista. Nessa cidade, 1,2% dos jovens de 15 a 29 anos são analfabetos. No estado, este índice está em 1,1%.

RESPOSTA DA SEGURANÇA

Ações intensificadas

A Secretaria de Segurança Pública disse, na semana passada, que a Polícia Civil de Guarulhos prendeu 11 pessoas por suspeita de participação em crimes de homicídio, no primeiro semestre de 2017. "Os outros casos permanecem sendo investigados para esclarecer a autoria e motivação", afirmou. "A partir da análise dos dados estatísticos, as polícias intensificaram as ações na área." Em relação ao policiamento preventivo, a SSP disse que a Polícia Militar atua na região com equipes de Radiopatrulhamento, Força Tática, Rocam e Ronda Escolar.


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