Diário de S. Paulo

24/08/2017 - 17:06

O perigo de andar de moto em São Paulo

Capital teve 31 vítimas fatais de acidentes com motos em julho, 82% a mais do que no mesmo mês do ano passado. No primeiro semestre inteiro a alta foi de 9%

Por: Fernando Granato
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Foto: Nelson Coelho/Diario SP

Colisão de moto e carro na Avenida Tiradentes. Moto com moto na Avenida Luiz Ignácio de Anhaia Mello. Carro e moto no Viaduto República Síria. Essa é a rotina de postagens no Twitter do Corpo de Bombeiros de São Paulo e não foi diferente na manhã da última sexta-feira, como se vê acima.

Em julho, de acordo com dados do Infosiga, o programa do governo paulista sobre segurança no trânsito, um motociclista morreu por dia na capital. Foram 31 mortes, 82% a mais do que as 17 registradas no mesmo mês do ano passado.

Já no total do primeiro semestre, segundo a mesma plataforma, foram 189 mortes, 9% a mais do que as 172 registradas no mesmo período de 2016 na capital paulista.

O mesmo mapeamento feito pelo governo paulista revela um dado desconhecido até então: a maioria das mortes de motociclistas ocorre na periferia, e não na região central da cidade. Do total de 31 mortes em julho, apenas três ocorreram no chamado centro expandido. Outros 12 motociclistas perderam a vida na Zona Leste, 12 na Sul, seis na Norte e um na Oeste.

A explicação, segundo Flamínio Fichmann, especialista em segurança de trânsito, está na falta de fiscalização.

"Se a presença de agentes de trânsito já é rara nas ruas do centro expandido, muito mais na periferia da cidade", analisou. "Fazem campanha contra cigarro, mas ninguém se importa com as motos, que são muito mais letais."

O médico fisiatra Fernando Quadros, da Rede de Reabilitação Lucy Montoro, concorda com o especialista em trânsito e ainda fornece mais dados alarmantes.

"Os acidentes com motos causam mais problemas do que os demais", disse. "Desses acidentados em duas rodas, cerca de 50% das vítimas se tornam paraplégicas ou tetraplégicas e quase 30% sofrem amputação."

INVALIDEZ/ Além dos impactos físicos, ressalta o fisiatra, existem consequências econômicas. "Nossos números mostram que apenas 40% dos acidentados com motos conseguem se recolocar no mercado de trabalho e, entre esses, o tempo médio para voltar a ativa é de 250 dias."

Sindicato defende faixa exclusiva para motocicletas

A reivindicação é antiga. Há pelo menos 10 anos, o Sindimoto SP (Sindicato dos Mensageiros Motociclistas do Estado de São Paulo) luta pela implantação de faixas exclusivas para motocicletas na capital paulista como forma de reduzir acidentes.

"É bastante importante separar as motocicletas dos carros", afirma Gil Santos, presidente da entidade. "A moto anda entre os carros, então, é preciso sinalizar esse tráfego."

Essa ideia foi adotada por gestões passadas na Prefeitura, mas acabou deixada de lado. Implantada em setembro de 2006 em caráter experimental, a faixa exclusiva de circulação de motocicletas de três quilômetros, na Avenida Sumaré, Zona Oeste, foi desativada quase sete anos depois.

O mesmo aconteceu com os quatro quilômetros de faixa da Rua Vergueiro, na Zona Sul. Na ocasião, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) alegou que a implantação não aumentou a segurança dos motociclistas.

Além das faixas exclusivas, o presidente do sindicato defende melhor formação dos condutores que vão se habilitar.

"As pessoas tiram habilitação fazendo uma prova só na primeira marcha", disse. "Isso é um absurdo. Deveria ter uma formação adequada antes do motociclista enfrentar o trânsito complicado da cidade e isso, infelizmente, não é feito."

A fiscalização tem de ser aumentada

Os países mais adiantados, como Japão, têm restrições para o uso de motos.  Enquanto isso, países menos desenvolvidos fecham os olhos para a alta letalidade desse tipo de transporte. O mínimo que se pode fazer é aumentar a fiscalização. Neste sentido, temos de adequar nossos radares, que hoje não conseguem autuar motos. isso porque eles só registram placas dianteiras e veículos que estão no centro das faixas. As faixas exclusivas ajudam, mas não resolvem.

Um acidente que mudou uma vida

Foto: Nelson Coelho/Diário SP

Tudo mudou na vida da jovem Joyce Caroline Calixto da Silva, de 21 anos, depois de uma noite de setembro do ano passado, quando perdeu a direção de sua moto e acabou  se chocando contra um poste, na hora em que voltava de um barzinho.

Joyce teve traumatismo craniano e, por conta do capacete, que sufocou sua carótida (artéria que fornece sangue para o cérebro), sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Desde então, ela, que ficou três dias em coma, vem se tratando para recuperar os movimentos da parte esquerda de seu corpo.

"Estava no terceiro ano da faculdade de enfermagem e estou há um ano afastada", contou, na semana passada, durante sessão de reabilitação na Rede Lucy Montoro. "Agora me dedico inteiramente à minha recuperação."

A luta de Joyce pela vida e para recuperar seus movimentos atingiu não só ela, mas a família como um todo.

A mãe, Adriana Pereira, que trabalhava numa loja, teve de abandonar o emprego para se dedicar à filha. "Alugamos a nossa casa, fomos morar com a minha mãe e estamos vivendo da renda do aluguel, contou Adriana, que tem mais uma filha além de Joyce.

Como principal lição daquela noite e das consequências do acidente, Joyce cita a valorização das pequenas coisas. "Agora sei o quanto é importante poder fazer coisas simples como colocar os óculos, tomar banho sozinha", disse. "Só quando a gente perde essa autonomia passa dar valor para tudo isso."

A unidade de reabilitação onde Joyce está internada há três semanas, no Morumbi, Zona Oeste, tem 45 leitos e cerca de 70 pacientes na fila de espera pelo tratamento, o qual é gratuito.

Ao todo, o governo do estado, responsável pelo serviço, conta com mais 10 leitos na capital, na Vila Mariana, Zona Sul, para o tratamento intensivo de acidentados que precisam de reabilitação.

Já a reabilitação ambulatorial é oferecida em cinco unidades espalhadas pela cidade (Vila Mariana, Lapa, Clínicas, Umarizal e Morumbi). O serviço foi criado pelo governo estadual em 2008.

RESPOSTA DA PREFEITURA

Monitoramento

A Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes disse que monitora permanentemente o comportamento do trânsito na cidade. "Este monitoramento norteia a implantação de medidas para reduzir acidentes e aumentar a segurança, entre as quais os programas Pedestre Seguro, Marginal Segura e M'Boi Mirim Segura", disse. "Com o objetivo de reduzir o número de registros envolvendo motociclistas, a CET restringiu a circulação de motos na pista central da Marginal Tietê, promove campanhas de conscientização e oferece cursos gratuitos de direção defensiva", afirmou a pasta.


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