Diário de S. Paulo

18/08/2017 - 16:52

Exclusivo: Doria fala sobre prévias e projetos para SP

Ao contrário do que vem sendo ventilado, prefeito de São Paulo, que nega ser candidato, entende que o melhor é escolher o nome tucano à corrida presidencial já a partir do fim do ano

Por: Fernando Granato
Guilherme Gomes Pinto

Foto: Nelson Coelho/Diário SP

Nos bastidores da política, especula-se que uma eventual renúncia do prefeito João Doria (PSDB) no primeiro ano de mandato, para disputar outro cargo político, poderia gerar mal estar com o eleitorado. Diante disso, tornou-se lugar comum dizer que ele preferiria que as prévias para escolha do candidato do PSDB à Presidência da República acontecessem o mais tarde possível.

Para colocar um ponto final neste assunto, Doria, em entrevista exclusiva ao DIÁRIO, afirmou ser favorável à realização das prévias já em dezembro. "Nós só começamos, ainda temos uma longa jornada pela frente na Prefeitura", disse o prefeito.

DIÁRIO_ O senhor tem dito reiteradas vezes que seu candidato a presidente da República é o governador Geraldo Alckmin. Por que é contra que ele seja escolhido o quanto antes em prévias, já em dezembro, como ele quer?

JOÃO DORIA_ Não sou contra que as prévias sejam feitas ainda neste ano. As pessoas interpretaram isso. Em primeiro lugar, não coloquei nenhuma objeção à realização de prévias, sou filho das prévias. Há uma proposta não definida para que aconteça em dezembro. Nunca fui contra ela.

Este é o melhor momento para elas?

Há um bom momento para elas, entre dezembro e março. Este é o período, na minha opinião, correto para que a definição de candidatura para a Presidência da República seja materializada pelo PSDB. Não mais do que isso. Ao contrário, penso que o PSDB precisa estar bem preparado para enfrentar uma dura campanha. Com Lula disputando pelo PT e outros candidatos também valorosos. Precisa preparar o partido e o Brasil.

O senhor acha melhor esta eleição com o ex-presidente Lula?

É melhor ter o Lula nesta eleição. E vencer o Lula. Nós não podemos continuar com a ideia de que o Lula é um mito invencível. Acho que é melhor que ele dispute, se a Justiça permitir, já que ele tem seis indiciamentos e uma condenação.

O mito Lula não o intimida?

Com a eleição, enterra-se o mito Lula e julga-se o Luiz Inácio. E aí ele terá o julgamento que o Poder Judiciário entender que lhe cabe, pelos crimes cometidos. Aí você pacifica o país. Se não, a derrota do PT vai ser creditada ao fato de ele não ter competido. Ele deve ter o direito de disputar, e o Brasil, de derrotá-lo.

Na sua eleição para prefeito, no ano passado, Geraldo Alckmin foi seu principal cabo eleitoral. O senhor será agora o principal cabo eleitoral do governador, já que tem se tornado uma voz contra o ex-presidente Lula?

Eu gosto muito do Alckmin. É um homem de respeito, um homem sério, 40 anos de uma vida pública limpa. Eu tenho por ele uma relação de amizade e admiração. Tem toda a legitimidade de querer disputar a Presidência da República. Não há nenhum senão. Eu sou PSDB e estarei ao lado do PSDB. Não tenho intenção de sair do PSDB.

No futuro, o senhor gostaria de ser presidente da República?

Não é uma avaliação que eu faço. Neste momento quero ser prefeito de São Paulo e realizar uma Prefeitura digna, transformadora, inovadora, como temos procurado fazer. É muito bom ser lembrado, ser saudado. Celebrado no ponto de vista das pesquisas eleitorais. Isso só reflete a sua própria gestão. Nunca tive mandato, não fui deputado, senador. Saí do setor privado, disputei uma eleição, ganhei.

O senhor descarta a hipótese de sair do PSDB?

Não tenho essa pretensão. Eu não sou dono do meu destino. Você não pode prever tudo e atestar tudo. Mas hoje minha posição é continuar no PSDB e fazer minha gestão à frente da cidade de São Paulo. Me filiei ao PSDB sem nenhum interesse político. Eu me filiei, em 2001, porque gosto do PSDB. Não tinha nenhuma perspectiva de disputar eleição alguma. Então é uma relação de lealdade também com o PSDB.

Mas o senhor tem defendido uma renovação nos diretórios do PSDB?

Entendo que 2016 foi um ano emblemático para o PSDB. Uma onda azul. Elegemos muitos prefeitos. Uma nova geração de prefeitos. Essa força precisa estar expressa nos diretórios. Não há razão para você ter no diretório pessoas que não têm voto. O voto é um instrumento democrático. Logo os diretórios devem espelhar o resultado das eleições. E isso não acontece.

Doria entrega exames do Corujão da Saúde / Foto: Reprodução

Doria entrega exames do Corujão da Saúde
Foto: Reprodução

Corujão da Saúde

Segundo o prefeito João Doria (PSDB), a saúde foi e será a principal prioridade de sua gestão. Neste sentindo, o Corujão da Saúde, programa que utilizou horários ociosos de hospitais privados para realizar exames, ganhou destaque em seu balanço dos sete primeiros meses.

DIÁRIO_ Quais foram os maiores acertos?

JOÃO DORIA_ A área da saúde é uma área vitoriosa. Ela apresentou bons resultados. Em três meses conseguimos zerar um déficit que era de quase 500 mil pessoas esperando por exames e estavam na fila há dois anos. Período absolutamente inaceitável.

O problema foi resolvido?

Agora, tem demanda obviamente, todo mês tem, mas estamos atendendo no limite de 60 dias todos os exames.

E as cirurgias?

Lançamos o Corujão da Cirurgia. Agora estamos agilizando as cirurgias no sistema público utilizando os horários não convencionais. A maioria das cirurgias nos hospitais é feita de manhã. Tem os horários da tarde e início da noite disponíveis. Estamos ocupando esses horários de disponibilidade.

O profissionais aceitaram?

Eles recebem um pequeno adicional além do que recebem normalmente, que é algo suportável dentro do orçamento da Prefeitura.

Museu de Arte de Rua

Depois da polêmica envolvendo pichadores e grafiteiros, no início da gestão, o prefeito João Doria lançou o Museu de Arte de Rua e coloca o programa entre suas conquistas.

DIÁRIO_ Acabou a polêmica com os grafiteiros?

JOÃO DORIA_ Nós revertemos um início um pouco difícil com esse mundo dos grafiteiros para uma relação muito boa que temos com eles hoje. Já inauguramos quatro museus de arte de rua e serão oito até o final do ano, em diferentes regiões da cidade, onde eles recebem as paredes para expressarem a sua arte. Eles fazem a curadoria. Nós iluminamos também. É arte que é para ser vista 24 horas por dia. Embelezando áreas da cidade, especialmente em regiões periféricas.

E os pichadores?

Os pichadores caíram muito, mais de 200 foram presos, indiciados, pagaram multa.

Tem alguma coisa que o senhor teria feito diferente?

Quando fizemos a operação da Avenida 23 de Maio e mandamos apagar as pichações, muitas estavam sobre desenhos de grafiteiros. Houve ali uma má interpretação e fomos vítimas dessa má interpretação. Acho que podíamos ter feito uma comunicação melhor, dialogando previamente.

Cumprindo com uma das primeiras promessas que fez ao ser eleito, Joao Doria e seus secretários se vestiram de garis para varrer a Praça 14 Bis / Foto: Arquivo/DiárioSP

Cumprindo com uma das primeiras promessas que fez ao ser eleito, Joao Doria e seus secretários se vestiram de garis para varrer a Praça 14 Bis
Foto: Arquivo/DiárioSP

Cidade Linda

No primeiro dia de governo, o prefeito João Doria vestiu roupa de gari e foi para as ruas lançar seu programa de zeladoria Cidade Linda. Sete meses depois, aposta que esta foi uma das maiores tacadas da sua gestão.

DIÁRIO_ Qual o balanço do programa Cidade Linda?

JOÃO DORIA_ O Programa Cidade Linda e o Bairro Lindo estão funcionando bem e dando capilaridade para a melhoria de praças, ruas, canteiros da cidade. Diversas áreas que estavam deterioradas.

Mas ainda há queixas de regiões abandonadas, buracos, falta de poda de árvores?

Mas isso leva tempo. Não se faz um milagre em sete meses. A gestão do meu antecessor não foi uma gestão de zeladoria da cidade. Mas o Cidade Linda e Bairro Lindo estão funcionando bem e tendo o engajamento da população. Isso é o ponto bom. A população, sobretudo nos bairros periféricos, participa para melhorar o seu bairro. Nós só começamos.

O senhor imaginou que seria mais fácil?

Os esforços e as dificuldades são aquelas na medida do que já imaginávamos. Não é uma cidade fácil. O volume de problemas, as heranças que recebemos. Recebemos um déficit de R$ 7,5 bilhões.

Cracolândia

Em 21/5, uma ação do estado e da Prefeitura retirou usuários de drogas e traficantes da Luz, no Centro. “Eu disse que iria acabar fisicamente com a Cracolândia, com aquela área sitiada, onde só se entrava com autorização do tráfico”, afirma Doria. Os usuários, porém, migraram para vários locais na mesma região nos meses seguintes.

DIÁRIO_ Foi mais complicado do que o senhor previa?

JOÃO DORIA_É um enfrentamento, e grande. É preciso coragem para se fazer isso. Tem facção criminosa, têm pessoas que infelizmente são dependentes, perderam a noção da própria razão de vida. Tem a incompreensão de movimentos de esquerda. Um volume de dinheiro muito grande envolvido. E, quando tem muito dinheiro, tem também corrupção. A capacidade de corromper pessoas é grande.

Mas o programa continua?

A nossa decisão é seguir o que estamos fazendo. Não vamos permitir em hipótese nenhuma a montagem de barracas ou o domínio físico dessa parte da Luz. Isso acabou. Antes precisava da autorização do tráfico para entrar e fazer a limpeza. Agora as pessoas podem circular livremente.

Os usuários continuam lá?

Mais de 1,3 mil aceitaram o tratamento voluntariamente. Quando falei do fim da Cracolândia, era o espaço físico, o shopping de drogas a céu aberto.

Dentes e olhos serão prioridade

Sorriso Família e Mutirão Oftalmológico. Esses são os próximos programas a serem lançados por João Doria (PSDB), na esteira da repercussão obtida pelo Corujão da Saúde, que em três meses zerou, segundo o prefeito, a fila por exames médicos.

"Agora vamos avançar para os programas de oftalmologia e odontológico", disse Doria. "Para que as pessoas mais pobres tenham direito a não só cirurgias de catarata, mas também ao tratamento de outras deficiências oftalmológicos, com fornecimento de óculos, dando prioridade inclusive a crianças e adolescentes."

De acordo com o prefeito, muitas crianças não conseguem sequer estudar direito porque têm deficiência. "Vamos resolver isso com esse programa", afirmou.

O primeiro a ser iniciado será o odontológico. "Isso começa agora em setembro", afirmou. "Terá um apoio importante que conseguimos da Colgate e do Rotary Club. Os profissionais vão atender nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Já tem até um nome, que é Sorriso Família."

Doria disse que a empresa parceira vai fornecer os kits e ajudar também com o relacionamento com os profissionais de odontologia.

"Vamos construir mutirões para que mais pessoas possam fazer exames e tratamentos odontológicos", afirmou o prefeito na entrevista exclusiva. "Agregando uma força tarefa adicional que já temos. Além do problema de saúde, essa questão bucal mexe com a autoestima da pessoa."


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