Diário de S. Paulo

16/08/2017 - 18:03

A cada minuto, Polícia Militar recebe 3 trotes

Projeto de lei tenta coibir esta prática, comum também no Samu

Por: Fernando Granato
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Foto: Divulgação

Foram 27 chamadas falsas em um único mês. As ligações eram sempre realizadas pelo mesmo número de telefone celular e, ao chegarem ao local para atender as ocorrências, os policiais militares não localizavam o responsável pela solicitação.

O caso aconteceu em Caieiras, na Grande São Paulo, em maio deste ano, e só terminou quando uma equipe policial recebeu uma denúncia anônima de quem seria o autor das ligações e chegou até ele, já em junho.

O adolescente abordado portava um aparelho celular com o mesmo número das ligações falsas. Seus documentos foram verificados e ele confessou a prática dos trotes e acabou encaminhado à delegacia do município.

Casos como este são comuns na PM. De acordo com a corporação, apesar de terem diminuído no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, ainda causam grandes transtornos.

Segundo o setor de comunicação social da Polícia Militar, apenas nos primeiros seis meses deste ano foram 725.742 ligações falsas no estado, o que dá uma média de quase três trotes por minuto.

Já no Corpo de Bombeiros, são 600 chamadas falsas por dia, numa média de seis trotes a cada 100 ligações.

Estatísticas internas apontam que os maiores responsáveis pelos trotes à PM são as crianças e os adolescentes. Essa faixa etária responde por 70% das ligações falsas. Durante os intervalos e as saídas escolares, a incidência de ligações desse tipo aumenta 10%.

Dessas ligações, 40% são com "piadinhas", outros 30% com "xingamentos" e 30% chamados falsos, em que a pessoa simula que está testemunhando um crime naquele instante ou está numa emergência.

Cada viagem de viatura sem necessidade custa cerca de R$ 200 aos cofres públicos, incluídas aí as despesas com combustível e salário dos envolvidos. Além disso, uma equipe que sai pode desfalcar uma chamada real que pode chegar em seguida.

Irresponsabilidade/ Em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, aconteceu o caso mais rumoroso envolvendo trotes contra a polícia.

Foi em 2015, quando um homem de 40 anos, que respondia por tráfico de drogas e estava cumprindo pena em regime semiaberto, passou 270 trotes à polícia em cerca de cinco horas até ser localizado e detido.

Samu reduz trotes com ação educativa

O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) de São Paulo recebeu no primeiro semestre deste ano 3.423 trotes, o equivalente a 4,1% do total de ligações. Mas no passado foi bem pior.

Segundo Denise Vilella, coordenadora do Núcleo de Educação do Samu, em 2008 cerca de 30% das chamadas recebidas pelo serviço eram falsas.

"Foi então quando percebemos que a maioria dos trotes era praticada por crianças e resolvemos fazer uma ação educativa para mudar essa realidade", disse.

A ação, chamada Programa Amigos do Samu, consiste em visitas a escolas para sensibilizar crianças e adolescentes sobre a importância do serviço, a forma correta de utilizá-lo e os riscos e prejuízos que os trotes causam.

"Explicamos que alguém da família daquele jovem pode realmente precisar de ajuda e não receber atendimento pelo fato de a ambulância estar ocupada num chamado falso", explicou Denise. "Esse argumento é imbatível."

Com o tempo, essa ação educativa extrapolou dos muros escolares para atingir a sociedade como um todo. Na semana passada, o programa de prevenção ao trote foi levado para a Expo Emergência 2017, uma feira sobre resgate, atendimento pré-hospitalar e combate a incêndio que aconteceu no Expo Center Norte, na Zona Norte da capital.

NÚMEROS

725

mil ligações falsas foram registradas pelo Copom (central da Polícia Militar)apenas neste ano

600

trotes diários chegam à central do Corpo de Bombeiros

3,8

mil chamadas falsas chegaram ao Samu em 2017, atrapalhando o trabalho dos socorristas

Trote pode causar morte de vítimas não atendidas

O trote ao Copom de São Paulo é muito grave. Aliás, o maior problema do atendimento são os falsos chamados. Por ser um serviço emergencial, a perda de tempo pode causar a morte de uma pessoa. Esse envio de viatura desnecessário causa perda de tempo e pode prejudicar outro local que de fato necessita de atendimento policial. As campanhas contra os trotes normalmente causam efeito contrário. As campanhas fazem aumentar o número de trotes ao Copom.

Projeto de lei no Senado busca punir infratores 

Tramita no Senado um projeto de lei que tem o objetivo de coibir os trotes telefônicos nos serviços públicos, de emergência ou não. A proposta já foi aprovada pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Casa.

O PLS 763/2015 é dos senadores Paulo Rocha (PT-PA), Acir Gurgacz (PDT-RO) e Lasier Martins (PDT-RS). De acordo com os autores, a estimativa é que os trotes representem de 20% a 70% do total de chamadas recebidas por esses serviços. Essas ligações podem gerar danos da ordem de R$ 1 bilhão por ano ao país, além de graves transtornos.

De acordo com a proposta, pessoas que usarem o telefone para comunicar falsas ocorrências à polícia e ao Corpo de Bombeiros, entre outros órgãos, ficarão sujeitas a punições, que vão desde a suspensão temporária até o cancelamento definitivo do serviço de telecomunicação, além do pagamento de multa de R$ 500 por infração.

"Enquanto os atendentes estão ocupados com a ligação falsa, alguém que realmente necessite do atendimento de emergência fica impedido de ligar para o serviço e sua vida pode acabar colocada em risco", afirmou Paulo Rocha na justificativa do projeto. 

O projeto prevê sanções administrativas no lugar de medidas penais. Mas dentro da proposta consta um dispositivo que obriga a comunicação às autoridades policiais dos casos em que a prática do trote tenha provocado o agravamento de saúde de pessoa que ficou sem atendimento. Nesse caso, a partir do inquérito policial e da denúncia à Justiça, o infrator poderá responder a sanções penais. O projeto tramita atualmente na Comissão de Constituição e Justiça.

Segundo o senador Flexa Ribeiro (PSDB/PA), relator da matéria na Comissão de Ciência e Tecnologia, "a solução apresentada, qual seja a previsão de suspensão gradual até o cancelamento definitivo dos serviços de telecomunicações utilizados para realizar o trote, combinada com medidas educativas que demonstrem os efeitos nocivos e os prejuízos financeiros dele decorrentes, é criativa e inovadora, indo além do simples enquadramento penal da conduta".


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