Diário de S. Paulo

30/08/2017 - 18:43

Ainda somos os mesmos...

'Como Nossos Pais', novo longa da diretora Laís Bodanzky, ilustra os dramas da mulher moderna e propõe reflexão sobre os papéis impostos pela sociedade e passados de geração em geração ao longo da vida

Por: Giovanni Oliveira
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Uma característica marcante no cinema brasileiro é a produção de filmes que abordam as relações humanas nas diferentes esferas da sociedade. É o caso de filmes como "Central do Brasil", "Que Horas Ela Volta?" e o recente "Doidas e Santas". Seja de maneira aprofundada ou não, as pessoas são o foco dos filmes. "Como Nossos Pais", novo longa da diretora Laís Bodanzky, não foge à regra, e surpreende por isso.

Com excelente roteiro de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, o filme começa sem começar. Ele rompe na tela em uma momento que pode ser facilmente reconhecido por qualquer pessoa: um almoço de família no domingo. Ali, na mesa, conhecemos Rosa (Maria Ribeiro), protagonista do filme, Dado (Paulo Vilhena), seu marido, Clarice (Clarisse Abujamra), a mãe de Rosa, seu irmão, cunhada e filhas.

Entre os sons de talheres e as panelas quentes, uma discussão começa quando Clarice diz que preparou sua receita de moqueca que há 20 anos não fazia, em homenagem ao genro Dado. Ele é um ambientalista em prol da Amazônia e das comunidades ribeirinhas. Rosa trabalha com publicidade e cuida sozinha das duas filhas pois, na maioria das vezes, Dado está viajando.

A declaração de Clarice deixa Rosa inquieta. Ela questiona o porquê de não merecer uma homenagem, já que faz tanto pela família, e é aí que começa a se desenrolar um carretel de situações-problema que parecem não ter fim; incluindo um segredo de família enterrado há 38 anos. Movida por um sentimento de incapacidade e vontade de mudar, Rosa inicia um longo processo de desconstrução pessoal sobre quem ela é e a vida que vive.

De maneira muito clara e verdadeira, sem apelações, o filme apresenta um recorte das responsabilidades impostas às mulheres de nossa sociedade. Neste cenário, entre cuidar dos filhos, das tarefas domésticas e do seu próprio emprego, ao homem tais funções não são exigidas.

Ambientado em uma família de classe média, tais dramas vividos pela protagonista se alinham com a vida de várias pessoas e classes. E, como o título do longa sugere, Rosa traz consigo características de seus pais mesmo da forma involuntária; e consequentemente, suas filhas replicam falas suas e do pai.

Aliado a uma ótima montagem, fotografia e um ritmo que não deixa o espectador entediado na frente da tela, o longa ainda conta com a excelente performance de Maria Ribeiro que passa veracidade e profundidade com sua personagem. E como cantava Elis Regina os versos de Belchior, ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais.


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