Diário de S. Paulo

13/07/2017 - 19:11

Projeto social de tatuador restaura a autoestima

Carlos Galina cobre, de graça, as cicatrizes de vítimas de acidentes ou pessoas que passaram por cirurgias

Por: Jeniffer Mendonça
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Foto: Nelson Coelho

O que antes eram cicatrizes nos seios e nas costas viraram um girassol, uma flor de lótus e uma orquídea após algumas sessões de agulhas com tintas coloridas. Wanessa Aparecida da Silva, 35, foi diagnosticada com câncer de mama há três anos e precisou reconstruir um dos seios. Passou, então, por muitas cirurgias e tratamentos de quimioterapia e radioterapia.

"Agora meu corpo é um jardim. Foi uma reconstrução na minha autoestima porque antes eu me sentia feia. É uma forma de esquecer das marcas também", declarou.

Os traços são do tatuador paulista Carlos Galina, 31, que criou o projeto 'Marcas da Vida' após escutar uma experiência parecida num estúdio em que trabalhava em Pouso Alegre, Minas Gerais.

"Apareceu uma moça com uma cicatriz muito grande devido a uma cirurgia no esôfago. O valor da tatuagem era muito caro porque a barriga é um lugar difícil de tatuar. Ela desanimou e foi embora, mas eu fiquei com aquilo na cabeça", contou. Há dois anos ele atende pessoas que não têm condições financeiras para cobrir as marcas que resultaram de acidentes, casos de violência ou operações.

Durante esse período, mais de 20 pessoas que se enquadram nesse quesito passaram pelas maquininhas do tatuador. "A pessoa entra no estúdio de um jeito, faz a tattoo e sai de outro. Tem gente que chora, já fala que quer comprar roupa nova, usar roupa curta que mostre mais o corpo", destacou.

Ele afirma que tatuagens feitas em cicatrizes costumam custar a partir de R$ 1 mil e que não basta apenas inserir os desenhos. É preciso estudar o tipo de pele, local e dimensão da fratura para realizar o procedimento. "Eu troquei várias ideias com uma dermatologista que me dá todo o suporte para entender os tipos de cicatrizes, o que fazer e não fazer, como usar uma agulha mais recuada ou uma agulha mais para frente", explicou ele. "Uma pele com cicatriz atrófica, por exemplo, é bem fininha, então não é bom utilizar uma pigmentação mais forte."

O projeto que começou em Minas Gerais chega a São Paulo por meio da sétima edição da Tattoo Week, que começou ontem e vai até amanhã (leia na pág. 3). Com o apoio de uma loja de equipamentos de tatuagem, Galina pretende expandir o serviço em nível nacional. O atendimento é por fila de espera e os interessados devem entrar em contato pelo e-mail [email protected]

Para mim, foi um renascimento 

Eu fiz um transplante de pulmão há dois anos por causa de uma doença chamada fibrose cística, que é uma doença genética que acomete os pulmões e o pâncreas. Durante a recuperação, tive uma complicação, que foi uma pericardite, porque eu tive retenção de líquido no pericárdio (tecido que envolve o coração), que teve que ser drenado. Os médicos tiveram que fazer outro corte, além do corte do transplante, onde ficou outra cicatriz, que eu cobri com a tatuagem. Escolhi um estúdio e fiz três sessões de R$ 250 cada uma. Eu queria esconder essa cicatriz, então escolhi uma fênix porque tem um significado muito importante de renascimento". 

Tradicional feira do setor vai até domingo

O estande onde Carlos Galino apresentou seu projeto faz parte de uma programação com mais de três mil artistas nacionais e internacionais na Tattoo Week, a maior feira de tatuagem e body piercing do mundo, que encerra sua sétima edição amanhã no Expo Center Norte (Pavilhão Vermelho), na Zona Norte da capital.

Durante três dias, o evento tem por objetivo aproximar os amantes da área. Em cerca de 650 estandes, haverá lançamentos de técnicas e produtos, exposição de trabalhos, workshops, competições, atrações musicais e um concurso de Miss Tattoo.

De acordo com o idealizador do evento, Ênio Conte, 51, que atua há mais de 30 anos no setor, a estimativa de público é de 70 mil pessoas. Para ele, o aumento do interesse no assunto ao longo das edições da feira é fruto da regulamentação do serviço.

"A partir do momento que os equipamentos passam a ser registrados, as pessoas se sentem mais seguras em realizar uma tatuagem", destacou o organizador.

 

Tatuagem também é questão de saúde

Para quem pensa em fazer uma tatuagem ou colocar um piercing, é necessário estar atento para não adquirir alguma contaminação. Uso de máscaras, avental, luvas e agulhas descartáveis são algumas das exigências para quem trabalha no setor.

Os equipamentos para o serviço devem ser esterilizados e registrados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e o estúdio, regularizado em órgãos de vigilância local.

Na capital há o Código Sanitário e a Lei 15.272/2010, o qual exige aos estabelecimentos alvará e cadastro dos profissionais.

Segundo a Covisa (Coordenação de Vigilância em Saúde), da Secretaria Municipal de Saúde, há 437 estabelecimentos cadastrados na capital. O descumprimento dos requisitos prevê multas de R$ 100 a R$ 500 mil, podendo até levar à interdição do estabelecimento.

Denúncias devem ser feitas pelo número 156, opção nº 2 (Vigilância em Saúde). Já a consulta dos estabelecimentos regularizados na capital é pelo site da Covisa (prefeitura.sp.gov.br/covisa).

Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e médico do Hospital Albert Einstein, Dr. Claudio Wulkan também frisa as responsabilidades do cliente no procedimento pós-tatuagem, que se assemelha ao de uma ferida.

"Deve-se evitar durante bastante tempo a exposição ao sol, banhos de imersão, natação, ir ao mar ou sauna. Cuidados com esportes de contato, como lutas, karatê, jiu-jitsu e observar como está evoluindo a cicatrização", alertou.

Quem quer cobrir uma cicatriz deve consultar um dermatologista para entender o tipo de marca e se o procedimento pode, mesmo, ser realizado. Algumas delas, dependendo do nível de gravidade, podem reduzir ou aumentar o tamanho após a cobertura com tinta.

Onde eu via cicatriz, hoje vejo desenho

Há dez anos, eu adquiri as cicatrizes dos seios e da barriga após duas cirurgias: uma de abdominoplastia e outra de redução dos seios. Também tenho na perna por causa de queimadura. Elas ficaram grandes e quando eu me olhava no espelho, me sentia incomodada. Conversei com minha médica e ela me orientou que eu poderia fazer a tatuagem após um ano da cirurgia. Procurei algo que eu gostasse, que fosse suave e desse harmonia a meu corpo, por isso as flores. As pessoas ainda têm muito preconceito com tatuagens e já falaram que depois de velha eu queria 'dar uma' de adolescente. Não me arrependo. Onde eu via cicatriz, hoje eu vejo um desenho que eu escolhi."  


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