Diário de S. Paulo

19/04/2017 - 19:30

PS do Hospital São Paulo deixa de atender 14 mil

Instituição está com portas fechadas para internações e recebendo só pacientes de emergência desde o começo do mês

Foto: Nelson Coelho

Fernando Granato

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Em 17 dias, o Pronto Socorro do Hospital São Paulo, na Zona Sul da capital, deixou de atender 14,2 mil pessoas com a decisão da diretoria de apenas receber os pacientes considerados de emergência e urgência.

No mesmo período, 461 pessoas deixaram de ser internadas no hospital, pela mesma deliberação dos gestores de reduzir os atendimentos. Os número foram passados ontem pelo diretor-superintendente da instituição, José Roberto Ferraro.

"É com dor no coração que apresento esses números", afirmou Ferraro. "Mas sem um aporte a mais de recursos não vamos conseguir estabilizar os atendimentos."

A diretoria do Hospital São Paulo, ligado à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), disse que teve três encontros com o ministro da Saúde, Ricardo Barros, para explicar a situação de inadimplência da instituição, que tem um déficit de R$ 34,6 milhões, com uma dívida com bancos de R$ 149 milhões e com fornecedores de R$ 11 milhões.

"Necessitamos de um aporte adicional de R$ 1,5 milhão mensais para poder voltar à normalidade", disse Ferraro. "Indiretamente, o que ouvimos do ministro da Saúde é que temos que diminuir os atendimentos."

O Hospital São Paulo tem 95 especialidades e é responsável e referência pelo atendimento de alta complexidade para cerca de 5,4 milhões de habitantes da capital paulista e da Grande São Paulo. Somente seu pronto socorro recebe diariamente 1,5 mil pacientes.

Com um orçamento anual de R$ 568 milhões, a instituição tem os repasses do SUS (Sistema Único de Saúde) congelados há anos, segundo os gestores. "Já nossa demanda não para de crescer", afirmou Ferraro, explicando que foram 236 mil pacientes em 2010 e 376 mil em 2016, com um incremento de 58% no período.

"Não recusamos nenhum paciente", disse Ronaldo Laranjeira, presidente da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, mantenedora da instituição. "Por isso nos demos mal financeiramente e acumulamos dívidas neste período."

Pacientes não conseguem exames

A desempregada  Maria Dias Neves, 36 anos, procurou na tarde de ontem o PS do Hospital São Paulo com uma forte dor no braço. "No início da semana fiz um exame em outro hospital e no lugar da injeção inchou muito", contou Maria. "Vim procurar socorro aqui no Hospital São Paulo mas me disseram que talvez eu não seja atendida porque está faltando material."

Assim como Maria, muitas pessoas que têm procurado o PS desde o início do mês estão recebendo informações parecidas. O mesmo tem acontecido com pacientes que buscam fazer exames.

Eni Silva, 53 anos, sofre de hipertensão pulmonar e necessita fazer periodicamente cateterismo (para medir a pressão cardíaca). "Os exames estão suspensos e isso tem prejudicado muita gente que necessita deles para viver", disse Eni.

Márcio Silva, 65 anos, sofre de lúpus (doença em que o sistema imunológico ataca as células do corpo) e também necessita de exames periódicos. "Venho aqui no Hospital São Paulo todos os dias desde o início do mês na esperança de terem retomado os exames", disse. "Mas até agora nada. Não sei quanto tempo vou aguentar. O que sei é que com o dinheiro da corrupção dava para resolver todo o problema de saúde do Brasil e ainda sobrava para mais alguma coisa."

RESPOSTA DO MINISTÉRIO

Avaliação financeira

O Ministério da Saúde disse que solicitou aos gestores do Hospital São Paulo informações sobre a situação financeira e quantidade de atendimentos realizados. "A partir desse levantamento, serão analisadas soluções conjuntas com as secretarias de saúde do estado e da capital para garantir a assistência da população", afirmou. Disse ainda que o governo federal responde por cerca de 90% da receita do hospital.


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